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Reflexão
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Desmistificar a hegemonia de esquerda na academia 
AN Original
2021-11-05
Por Marcela Uchôa

Imagem: conteúdo de esquerda não inibe o conteúdo e as práticas neoliberais na academia, referência criticallegalthinking 2019 (https://criticallegalthinking.com/2019/04/30/law-critique-life-is-not-simply-fact-aesthetics-atmosphere-the-neoliberal-university/)

«A academia é um bastião de esquerda», é um refrão recorrente nas narrativas de direita e extrema-direita sobre as Universidades e o ensino superior. Na sua recente análise do panorama pólitico português, em entrevista ao “Jornal i” o professor de filosofia da Universidade de Coimbra, Alexandre Franco de Sá, ainda se queixou do facto que em Portugal, uma pessoa de direita seria caracterizada automaticamente como “mau ou burro”, e derivava esse fenómeno duma suposta hegemonia de esquerda em Portugal depois do 25 de abril. Até certa esquerda liberal e intelectual acredita nesta narrativa; como se a posição política dependesse do conhecimento e que fenómenos associados à extrema-direita como racismo e xenofobia fossem fruto de falta de conhecimento. O lugar do conhecimento seria, portanto, também um lugar de esquerda. Mas será mesmo a academia um lugar assim tão progressista?

Em primeiro lugar é preciso apontar o facto que a narrativa da “academia de esquerda” não é um fenómeno tipicamente português, derivado à suposta hegemonia de esquerda pós-Abril. Pelo contrário, é uma narrativa defendida pela extrema-direita um pouco em todo o mundo. A ideia de que a academia espalharia o “marxismo cultural” e a doutrinação progressista tem destaque nos discursos bolsonaristas do Brasil, na narrativa de Trump e Bannon nos Estados Unidos, bem como no discurso de grande parte da nova alt-right europeia. Vários desses movimentos inclusivamente montaram esquemas para que estudantes e pais denunciassem esses professores.

Em segundo lugar, não existe nenhuma hegemonia de esquerda em Portugal desde 1974. O professor Sá alega que partidos como o PSD e CDS são partidos do centro, e suas lideranças estariam sempre mais à esquerda que a sua base eleitoral; a “verdadeira” direita – até a aparição do Chega – nunca tinha tido uma hipótese digna em Portugal. Mas na verdade, desde a derrota do fascismo na Europa, todos os grandes partidos de direita, como a CDU/CSU Alemã ou a CDA holandesa, mantiveram um discurso que representavam o Centro. Como estes partidos, em oposição aos portugueses, historicamente têm uma base cristã-sindicalista, a direita Portuguesa é provavelmente ainda mais conservadora que a média Europeia. São partidos clássicos de direita que defendem políticas de austeridade liberal, inspirados por uma ética conservadora e religiosa e um discurso nacionalista. Quando se reivindicam como de centro, acontece na verdade o contrário da hipótese do professor Sá; é por ainda existir uma consciência de esquerda na população que os partidos de direita não se reivindicam abertamente como “direita”, mas defendem um programa, ideologia e prática de direita. Mais de metade dos governos e presidentes em Portugal desde a derrota do Estado Novo enquadram-se neste campo político. Ademais, mesmo os outros, os governos de esquerda, na verdade praticaram maioritariamente políticas de centro-direita; com um partido socialista ultra-Europeista e liberal, sempre à direita dentro da sua família política Europeia. Mais de 40 anos desta hegemonia de direita, resultaram na mercantilização parcial ou completa da banca, indústria, transportes, saúde e ensino!


Voltando à academia, estas políticas no campo do ensino são um fator importantíssimo para desmisticar a “esquerda académica”. Embora os estudantes, nos anos ’60 e ’70 tenham tido um papel importante na resistência contra o fascismo, historicamente Portugal sempre teve um mundo académico muito elitista, conservador e hierárquico; com muitas ligações à extrema direita. Salazar era professor da FDUC, e o ditador fascista espanhol Francisco Franco lá foi condecorado como doutor honoris causa e nunca perdeu esse título.

O processo revolucionário pós-Abril levou a várias mudanças: muitos movimentos estudantis que se tinham radicalizado contra o Estado Novo, por razões politicas, viraram-se para o povo e a classe trabalhadora. Houve uma certa democratização do ensino superior, e com certeza houve jovens de esquerda dessa altura que entraram na academia e lá fizeram carreira. Mas daí a chegar a uma hegemonia de esquerda é muito longe.

As políticas neoliberais que se aplicaram ao ensino superior, à investigação e à ciência – desde Bolonha, ao RGIES, às formas de financiamento de investigação, à seleção de pessoal nas universidades - tendem a construir uma hegemonia de direita nas universidades. Começa desde já pela re-elitização das próprias universidades, onde o background social é um enorme entrave à participação do ensino superior, não só sob forma de propinas e custos de vida, mas também por uma cultura tendencialmente elitista e hierárquica – e até sexista e xenófoba - que tende a excluir grande maioria dos estudantes e formar um círculo social à volta das mesmas famílias.

Hoje, além disso, a academia – fora para uns poucos catedráticos de carreira – está desenhada como uma competição feroz, onde predomina a precariedade do trabalho, onde o individualismo e egoísmo é forçado. O académico é hoje um mini-empreendedor que gere recursos humanos escravos para cumprir metas. Está à procura constante de financiamento precário e competitivo, muitas vezes no sector privado, e é incentivado a inflacionar CV’s sob um discurso da eficiência e meritocracia.

Este tipo de academia não está desenhado para preferenciar académicos de esquerda. Antes valoriza acadêmicos que se dão bem com o individualismo, a competição, o elitismo, o oportunismo e valores conservadores; ou seja, valores que seriam de direita. É neste contexto também que entra o caso mediático da “fraude académica” da Raquel Varela. Como vários intervenientes sobre o caso já comentaram. Muitas das alegadas práticas são eticamente muito questionáveis e repudiáveis; mas são uma norma de comportamento na academia atual. A contradição primária existe numa académica com um perfil público de esquerda praticar esse tipo de comportamentos: ou seja, alguém que fosse “politicamente correto” nas suas práticas, muito dificilmente consegue se manter nesta forma de academia. 

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