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Reflexão
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Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Anti-Heteropatriarcado
Por Uma Educação Transformadora: Experiência com Povos do Campo em Pernambuco
AN Original
2021-10-06
Por Eugênio Pacelle da Costa Cavalcante

O educador pernambucano, Paulo Freire, patrono da educação brasileira, nos deixou um legado extremamente rico de experiências positivas de educação com os povos do campo, desde a década de 1960, com quem aprendemos que “Tanto quanto a educação, a investigação que a ela serve, tem de ser uma operação simpática, no sentido etimológico da expressão. Isto é, tem de constituir-se na comunicação, no sentir comum uma realidade que não pode ser vista mecanicistamente compartimentada, simplistamente bem “comportada”, mas, na complexidade de seu permanente via a ser.”
– Paulo Freire, em “Pedagogia do oprimido”. 11ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 118. É preciso aprender a ler o mundo de maneira crítica para transformá-lo e, dialeticamente, nos transformarmos juntos com a realidade. O velho Heráclito já ensinou sobre o devir ao afirmar que “a única coisa de permanente é a mudança”.

Partindo desses princípios, o Conselho Superior do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) criou a Política de Extensão com os Povos do Campo, aprovada no dia 28 de abril de 2021. Esta Política tem como objetivo “estabelecer diretrizes para orientar e normatizar o relacionamento do IFPE com os povos do campo nas ações de extensão”.

O documento que fundamentou a criação da citada política de extensão é fruto de muitos encontros com representantes do Movimento dos Sem Terra (MST), que trabalham no Centro de Formação Paulo Freire, localizado no assentamento Normandia, em Caruaru; com lideranças comunitárias da comunidade quilombola do Barro Branco, em Belo Jardim; e com representantes de outros movimentos sociais.

O IFPE é uma, dentre tantas instituições federais, que oferecem o ensino público, gratuito e de excelência, e que tem no seu fundamento o princípio da indissociabilidade das ações de Ensino, Pesquisa e Extensão. É composto por 16 campi, dentre os quais, três são antigas escolas agrícolas, situadas nos municípios de Belo Jardim, Vitória de Santo Antão e Barreiros.

O campus agrícola de Belo Jardim, localizado na região agreste do estado de Pernambuco, recebe estudantes de vários municípios circunvizinhos como Sanharó, Tacaimbó, São Bento do Una, Pesqueira, Poção, Manari e outros, onde há comunidades quilombolas, povos originários e grande número de famílias de pequenos agricultores e artesãos e os cursos ofertados são para pessoas de variados perfis e vocações. O nosso enfoque é na inclusão das pessoas que vivem no campo, buscando a melhor maneira de trabalhar com elas para que iniciem e não desistam do curso, apesar das dificuldades e desafios enfrentados nos deslocamentos, ou na impossibilidade de se tornarem estudantes internos, que ficam a semana no alojamento do IFPE, e vão passar o final de semana em casa, com sua família.

Em que consiste a Educação do Campo? Consiste no permanente e frutificante diálogo com os povos do campo, possibilitando uma relação dialógica que respeite as suas particularidades e incentive os nossos estudantes a tomarem cada vez mais consciência da sua realidade social, aprendam a negar a discriminação sofrida pelas classes dominantes, para se afirmarem como sujeitos da construção de uma nova realidade social, política e cultural. “A educação do campo está articulada à luta pela justa distribuição de terras, à agroecologia, à valorização dos saberes tradicionais e à pluralidade de culturas (art. 26)”

Como está escrito no Art. 8º da Política de Extensão com os Povos do Campo: “O IFPE assume, por meio desta Política, o compromisso de guiar sua atuação junto aos povos do campo dentro dos princípios estabelecidos pela educação do campo, pelo bem viver, pela agroecologia e pelo respeito à ancestralidade”, criando em cada campus um Grupo de Extensão com os Povos do Campo, composto por professores, técnico-administrativos, estudantes e representantes das populações camponesas, tradicionais e originárias.

Qual o público estratégico desta política? Os seguintes segmentos populacionais: assentados de reforma agrária; ocupantes de terras; ribeirinhos; agricultores familiares; pescadores; quilombolas; povos originários; posseiros; trabalhadores rurais; ciganos; extrativistas; artesãos; marisqueiras; trabalhadoras de facção; bordadeiras de jeans; remanescentes de senzalas; vaqueiros; rendeiras.

Resistências à Política de Extensão aos Povos do Campo: Houve quem questionasse o porquê da criação desta Política de Extensão para todos os campi que compõem o IFPE e não apenas para os campi agrícolas. Porém prevaleceu o entendimento de que os servidores e estudantes do campus Recife, a capital do estado, e dos demais campi poderiam/deveriam abraçar essa causa junto às pessoas que trabalham e vivem em localidades distantes. Reconheceu-se também que na Região Metropolitana do Recife existem comunidades ribeirinhas, comunidades de pescadores e marisqueiras que devem ser contempladas e acompanhadas pelos Grupos de Extensão de todo e qualquer campus. E entendeu-se ainda que existe um leque amplo de trabalhadoras e trabalhadores que desenvolvem suas ações usufruindo ou impactando direta ou indiretamente o meio ambiente e o modo de se relacionarem com a natureza, com as pessoas do convívio social e com a tradição dos seus antepassados, bem como têm a responsabilidade de manterem viva a memória da sua ancestralidade.

Ações estratégicas: Algumas das ações estratégicas desta Política são as seguintes: realização de visitas técnicas a territórios camponeses e entidades representativas dos povos do campo; realização do Seminário de Agroecologia e Educação do Campo; realização de programas de intercâmbio nacionais e internacionais, em conjunto com a Reitoria e a Assessoria de Relações Internacionais (Arinter); busca ativa de estudantes do campo para ingresso no IFPE; promoção de debates, rodas de diálogo e similares nos campi e nos territórios; promoção de estágios obrigatórios e não obrigatórios em territórios do campo (quilombos, aldeias indígenas, assentamentos, ocupações, áreas de agricultura familiar, áreas de ciganos e centros de formação camponesa). Além disso, a Pró-Reitoria de Extensão está criando o Grupo de Trabalho para “elaborar estratégias de ação para inclusão de populações marginalizadas do campo e da cidade nos cursos regulares do IFPE”, assim como assessorar os campi na execução de ações junto às populações LGBTQI+, negras, periféricas, 60+ e de mulheres.

Sabemos bem da importância e riqueza dos processos de educação assistemática que nossas comunidades tradicionais preservam a partir das vivências com os mais velhos. As iniciativas extensionistas com os povos do campo não podem ficar restritas a observar essas experiências, mas devem identificar as urgências e carências formativas dos povos do campo em relação aos conhecimentos mais elaborados da formação sistemática, formal, que reforce a formação integral do ser humano. E, como o documento afirma, “assumindo as bases teóricas da educação do campo, a extensão para os povos do campo pode e deve, efetivamente, ser uma ação sociocultural e política de mudança das relações interpessoais existentes, não só na contradição capital x trabalho, mas na dialética do processo de conscientização para superar as opressões étnico-raciais e de gênero, fazendo com que a escola, enquanto educação formal, seja necessária às mulheres e aos homens do campo” (Art. 27).

Apesar dos cortes orçamentários que vem sofrendo a educação pública no Brasil, não faltam amor e dedicação por parte de servidores e servidoras à causa da educação inclusiva. Esses profissionais da educação não esperam a mudança acontecer, mas promovem o novo jeito de fazer educação quando partem ao encontro dos jovens sonhadores, sedentos de saber e de justiça social. A educação pública gratuita e de excelência ganha mais sentido na convivência com os estudantes vaqueiros-aboiadores (vaqueiros porque lidam com o gado; aboiadores porque entoam as cantigas sobre essa lida), agricultoras, quilombolas, indígenas, artesãos e artesãs, que tecem os fios da esperança na sua própria vida, cantando canções de amor, para alívio das dores da alma nestes tempos sombrios. E como cantou Milton Nascimento “Todo artista tem de ir aonde o povo está” (Nos bailes da vida – Fernando Brant), assim também os educadores e educadoras comprometidos com a educação pública e de excelência precisam ir até os rincões onde não tem um bom sinal de internet, mas tem gente com vontade de aprender sempre mais em busca de autonomia, dignidade e inclusão social. 


Eugênio Pacelle da Costa Cavalcante. Professor EBTT de Filosofia no IFPE, campus Belo Jardim-PE. Mestre em Educação pela UFPE (2018), Especialista em Filosofia Contemporânea pela UFMG (1996), Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1991).
 

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