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Reflexão
Original
Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Anti-Heteropatriarcado
Cuidar
AN Original - Alice Comenta
2021-09-14
Por Teresa Cunha

- Qual foi o pior momento desde que cuidas das mães?
(silêncio)
- Naquele fim de tarde quando a mãezinha já não conseguiu chegar a tempo à casa de banho e fez chichi pelas pernas abaixo, e chorou. Eu chorei também e percebi que tinha chegado o momento de cuidar para que ela nunca mais chorasse por fazer chichi pelas pernas abaixo.
(silêncio)

Linoca Souza

A pandemia trouxe a necessidade de falar do cuidado, dos cuidados. Parece que quase de repente, toda a gente entendeu quanto a vida e os cuidados são fundamentais e estão no cerne, na seiva das sociedades e são condição da nossa existência.

A hipertrofia das reflexões, publicações e das notícias sobre o cuidado, diga-se que principalmente sobre os cuidados de saúde por causa da infecção COVID-19, revelaram uma parte, também muito importante, do que está em causa. No entanto, e ao mesmo tempo, foram subsumidos na retórica sanitarista colonizada pelas metáforas bélicas, os mundos dos cuidados que sustentam a vida em todas as suas formas e que, afinal, são os alicerces sem os quais tudo mais se arriscaria a tornar-se incapaz de chegar a tempo de fazer chichi na sanita com conforto, asseio e sem medo.

Arriscar pensar para além disso e colocar em cima da mesa o tudo que fica escondido, e novamente desvalorizado, é o que nos move; para que nada fique como dantes e para que se perceba que aquilo a que se chama, sem cautelas, a volta ao ‘normal’ é uma relação defeituosa e perigosa que nos está a levar a uma guerra sem fim à vista da qual todxs sairemos mortxs.

A ética reacionária do cuidado que servido para justificar e manter a subalternidade das mulheres, a acumulação de dinheiro, poder e autoridade por parte de uma pequena elite, e o desprezo pela diversidade da vida. Essa forma de entender os cuidados inferioriza, desqualifica, estigmatiza todos os trabalhos implicados nele - e que são maioritariamente realizados por mulheres - que passam a ser considerados subsidiários, residuais e improdutivos. Não só expulsa o cuidado da política e da economia como também reduz os conhecimentos e competências imaginados, construídos e transmitidos a partir das experiências diversas das cuidadoras – e alguns cuidadores – à impertinência e irrelevância. O desprezo a que foram votados os conhecimentos gerados pelos cuidados, ridicularizando-os e remetendo-os para ‘coisas de mulheres’ tem permitido criar uma hierarquia epistemológica que acompanha a desvalorização política do cuidado tanto nas suas dimensões sociais quanto ecológicas e ontológicas. Os cuidados são ininterruptos, são exigentes, obrigam a uma resistência permanente à frustração; exigem concentração, criatividade, força, coragem, paciência, persistência e amorosidade. São para todxs e por todxs.

Em período de pandemia pelo novo Coronavírus a mais insurgente das reflexões é afirmar que a economia, que não está nem aquém nem além da vida, não parou. Ao contrário, as economias que produzem a vida incessantemente, as economias dos cuidados, estão a funcionar na sua máxima capacidade para proteger, alimentar, abrigar, curar, produzir alimentos, limpar, apoiar e amar. Contra-a-corrente da ideia de mais uma recessão económica global, há que espalhar a notícia de que as economias dos cuidados estão em marcha, ainda que muitas vezes, silenciadas, desprezadas e fragilizadas. Apesar de tudo elas permanecem, acintosamente, presentes nos nossos dias criando alternativas e dando-nos os sinais que precisamos para buscar alternativas que nos podem salvar agora e no futuro.

A partir das epistemologias do Sul (Santos, 2018) eu escolho o conceito de artesania para pensar uma ética feminista do cuidado contra-a-corrente capitalista, colonial e patriarcal. A artesania é quase sempre pensada como uma espécie de sobrevivência do arcaico, do derivativo e da micro-escala. A artesã é a pessoa que não consegue entrar no mercado de trabalho ou na lógica de trabalho industrial e/ou tecnológico. Portanto tem um défice de capacidade ou faltaram-lhe as oportunidades; ou ainda, a artesã é aquela que escolhe um estilo de vida alternativo, portanto, subsidiário do que é principal ou tido como o normal.

Defendo que a artesania é acção criativa e imaginativa sobre o mundo. São práticas não segmentadas que buscam resolver problemas ou reinventar contextos e lugares onde a vida tem lugar. A artesania é um modo complexo de aprender e ensinar, onde a repetição e a inovação são partes inteiras do processo, não uma dicotomia. O conceito de repetição tem virtualidades importantes pois é com a repetição que se consegue afinar, criar precisão, mas não existe para eliminar as singularidades que cada processo de criação exige. A repetição, é uma outra economia do rigor que é obtida pela cuidadosa consideração da contingência dos materiais, pelo impulso criativo de quem pratica, pelo contexto, pelos recursos de tempo e espaço disponíveis. Por seu lado, a inovação não é o outro lado da repetição é o mais além, o imprescritível que a imaginação garante. É uma forma de sentir-saber-fazer que se realiza em singularidades semelhantes, mas que forma, a cada momento, novas teias de sentidos, usos, formas, horizontes, conhecimentos e tecnologias.

O trabalho e o pensamento artesanal implicam, pois, continuidades, articulações, co-responsabilidades entre actividades e entre as pessoas que as desenvolvem. A complexidade prevalece desde o acto de pensar, conceber, criar e devolver para a comunidade o que todos estes processos geram e alimentam. Trata-se, pois de um sentir-saber-fazer que não se pensa em abstracto ou desencarnado dos corpos-territórios que o materializam. É uma relação diferente com o tempo em que o que vem de longe é a segurança do que já se sabe e já se tem e que permite avançar com alguma confiança para o que ainda está para vir e por se fazer. Daí que a artesania envolve não um tempo lento, mas um tempo com tempo no qual várias gerações de protagonistas, saberes e tecnologias são integrados num processo de co-criação e onde a assunção das raízes não limita as suas escolhas. Ao contrário da divisão sexual do trabalho capitalista, colonial e patriarcal que separa os tempos, os lugares e as escalas criando redutos de dominação onde é difícil resistir ao e no isolamento, este conceito de artesania, enfrenta essa lógica propondo-se unir, elaborar continuidades, que não são imobilidades, mas sim transformações contextualizadas e significantes e onde as reciprocidades não simétricas são partes constitutivas.

Esta racionalidade artesanal dialoga com as entidades ch'ixis ‘que não são pretas ou brancas, são as duas ao mesmo tempo como afirma Silvia Cusicanquí (2018). Mas estas entidades ch’ixis, o múltiplo constitutivo de cada uma, não são inertes ou estáticas, mas relações orientadas para produzir calor, afectos, laços, encontros. Nesse sentido, a micro-política do quotidiano, onde a artesania tem o seu maior lugar é valorizada, entendida como a criação de redes construídas através de diversas comunalidades onde as afinidades inspiram outras sabedorias feministas. Por isso, o pensamento artesanal além de ser uma entidade ch’ixi convida-nos a repensar o político para além do dilema entre o micro e o macro, precisamente além da relação de tensão angustiante entre o micro e o macro.

A meu ver, pode-se pensar as práticas artesanais e assim, os cuidados, como economias de troca que se organizam a partir de sectores populares e oprimidos; que almejam a transformação social através da sua conscientização sobre os sistemas materiais e simbólicos que as oprimem; buscam a auto-determinação dos corpos e dos territórios; atendem ao primado do bem comum; e utilizam pedagogias a que chamamos de pele-com-pele ou a indisciplina das ternas reciprocidades.


Este artigo faz parte da série Alice Comenta, da autoria da equipa do Programa de Investigação alice-Epistemologias do Sul, publicada no Alice News com cadência semanal.


Teresa Cunha é doutorada em Sociologia pela Universidade de Coimbra. É investigadora sénior do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde ensina em vários Cursos de Doutoramento; co-coordena a publicação 'Oficina do CES', os ciclos do Gender Workshop. Coordena a Escola da Inverno 'Ecologias Feministas de Saberes' e o Programa de Investigação Epistemologias do Sul. É professora-adjunta da Escola Superior de Educação do Instituto Superior Politécnico de Coimbra e investigadora associada do CODESRIA e do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique. Em 2017, foi agraciada com a Ordem de Timor-Leste pelo Presidente da República Democrática de Timor-Leste. Os seus interesses de investigação são feminismos e pós-colonialismos; outras economias e economias feministas mulheres; transição pós-bélica, paz e memorias; direitos humanos das mulheres no espaço do Índico. Tem publicados vários livros e artigos científicos em diversos países e línguas dos quais se destacam: Women InPower Women. Outras Economias criadas e lideradas por mulheres do sul não-imperial; Never Trust Sindarela. Feminismos, Pós-colonialismos, Moçambique e Timor- Leste; Ensaios pela Democracia. Justiça, dignidade e bem-viver; Elas no Sul e no Norte; Vozes das Mulheres de Timor; Timor-Leste: Crónica da Observação da Coragem; Feto Timor Nain Hitu - Sete Mulheres de Timor»; Andar Por Outros Caminhos e Raízes da ParticipAcção.

 

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