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Reflexão
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Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
A queda de Ícaro à brasileira
AN Original
2021-08-31
Por Rafael dos Santos da Silva

Quando Ícaro recebeu de seu pai Dédalo um par de asas presas em suas costas por ceras, ele pode experimentar a liberdade de voar. Porém bem sabia que não poderia voar próximo ao sol sob pena de ver derretidos seus sonhos. Contudo, sua ousadia o levou ao mais alto possível quando de repente o sol derreteu suas asas o fazendo precipitar sob o mar de Creta. O que chama mais atenção na pintura a óleo de 1558, é a vida cotidiana a seguir seu curso enquanto Ícaro agonizava. O camponês negociava sua lavoura, o pastor guiava seu rebanho, e o comércio mantinha seu curso. Era a vida que seguia, ainda que quase despercebida esteja um par de pernas a espernear em tentativas inglórias de salvação.

Fonte: Pieter Bruegel Oude. 

Ao receber Asas, Ícaro não titubeou em sair de Creta, mesmo sabendo dos riscos. Fugir de um ambiente hostil, lançar-se à liberdade possível era a única saída.  Para contextualizar a mitologia grega à brasileira é preciso regressar ao dia 9 de janeiro de 2004, quando foi instalado no Brasil o Programa Bolsa Família – PBF. Tratava-se da maior distribuição de renda direta que colocou inicialmente 22 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema no orçamento público. Ao longo de 17 anos, o PBF atendeu a mais de 50 milhões de pessoas que, igual a Ícaro, ousaram voar alto com asas de ceras. Alguns desses empreenderam em pequenas economias, outros construíram condições para que seus filhos ficassem no ambiente escolar por mais tempo. Outros ainda evitaram a fome imediata, com isso a exposição à vulnerabilidade.

A pobreza pela primeira vez era enfrentada de forma organizada. De uma hora para outra, o país assistiu ao estabelecimento de um grande cinturão de proteção social capaz de garantir acesso a medicamentos, por meio das farmácias dos trabalhadores, ou alimentação direta com os restaurantes populares, ou ainda, a conquista da casa própria, por meio do programa Minha Casa Minha Vida. No plano da educação, não foi diferente. Uma massa composta pelos filhos(as) dos trabalhadores(as) acessou a universidade, inicialmente via financiamento às instituições privadas, mas depois pela expansão das Instituições de Ensino Superior que já alcançam 296 unidades. Soma-se a isso a lei das cotas a garantir vagas especiais para pessoas historicamente prejudicadas pelo racismo estrutural. Em outras palavras, a periferia tomou o rumo do conhecimento, e nela o autor deste artigo, que assim como milhares de jovens se fizeram médicos, engenheiros e professores.

Ao todo, o processo de proteção social no Brasil evitou a pobreza a mais de 50 milhões de brasileiros. Isso significa que foram inseridos no sistema econômico, financeiro e de consumo aproximadamente cinco vezes a população de Portugal.

Contudo, as asas eram de cera, e ao se expor ao calor ultra liberal derreteram condenando milhares de pessoas à condição de pobreza extrema. Estas passaram a agonizar em meio a uma economia adoecida por um sistema político falido e um populismo criminoso praticado pelo atual governo federal na persona do seu chefe maior, que por sua vez não mede esforços para derreter as ceras das asas dos mais vulnerabilizados. Dados oficiais registram que o mar pandêmico assiste solenemente a 19 milhões de pessoas expostos à agonia da fome. Para o IBGE, já são 14,8 milhões de pessoas desempregadas. 6 milhões estão desalentadas, ou seja, deixaram de procurar emprego, e a taxa de subutilização já alcança níveis alarmantes de 29%. Segundo o relatório Olhe para a Fome, um a cada dois brasileiros está exposto(a) à insegurança alimentar e 1,4 milhão de crianças têm negado o acesso à escola. Em outras palavras, estamos produzindo analfabetos, desempregados e famintos: eis a própria expressão da agonia que impunha a Ícaro a uma morte lenta, penosa e desassistida.

Por trás disso, há uma elite tacanha que financiou o golpe em 2016, atrelada a uma classe política mesquinha e sórdida. Juntos não cansam de tramar contra os pobres. Há 6 anos, uma sucessiva onda de ataques à democracia vem sendo alimentada. De forma resumida aponta-se para o congelamento dos gastos públicos em saúde e educação. Depois, a reforma trabalhista a eliminar direitos conquistados. Em seguida as privatizações estratégicas como o Petróleo e os Correios. Na prática, o Brasil está privatizando os lucros e socializando os prejuízos. Os preços do gás de cozinha e a da gasolina, que estão na base da economia moderna, impactam de forma decisiva a inflação que começa a dar sinais de resistência. Um pouco de “plus ça change, plus c’est la même chose"

Não obstante, mesmo a despeito da profunda crise ecológica, o agronegócio brasileiro não cansa de bater recordes. Sem nenhuma fiscalização estão transformando mata nativa em pasto. Os povos indígenas e as comunidades tradicionais são alvos de ataques físicos que muitas vezes lhes custam a vida. Nos grandes centros, famílias inteiras se apinham nas praças públicas por falta de um teto. Não é raro, camas e mesas amontoaram-se em espaços a recepcionar mais um sem teto que chega ali despejado por não ter conseguido pagar seu aluguel. A crise sanitária parece ser propositadamente prolongada pela simples ausência de planejamento. Falta vacina no braço e comida no prato.

Como consequência há nas ruas do Brasil uma verdadeira aversão aos pobres. Um jogo de ódio e culpa é acionada para fazer surgir entre nós o potente conceito de Adela Cortina chamado Aparofobia. Essa sim uma grande ameaça à democracia. Em um ambiente constituído pela aparofobia o ódio destilado a pessoa em situação de pobreza é de tal sorte que estes acabam sendo culpados pela própria condição. Uma narrativa política é desenhada para culpabilizar e potencializar uma verdadeira aversão aos pobres. O controle sobre os pobres é posto em curso para o identificar e estigmatizar. Isso ocorre ora como violência simbólica, ora romantizada por doações seguidas de self, ora canalizada pela violência institucional. Na prática, a pessoa em condição de pobreza extrema, é exposta a uma perversa dinâmica social da pobreza que, senão parada, irá conduzir o indivíduo a desfiliação do contrato social. Nesse instante, o Estado lança mão do seu modelo mais totalizador de opressão chamado sistema carcerário, destino que é do desfiliado(a). Os pobres são nesse limite produzidos, vigiados e punidos. Aqui a aparofobia ocorre como marca singular de uma sociedade colonial no método e patriarcal na técnica de reproduzir seus laços.

Hoje, o Ícaro cai todas as vezes que a fila do desemprego cresce. Quando falta comida na mesa, quando falta vacina no braço. Quando um jovem é encarcerado(a) ou quando uma defensora pública não consegue advogar sua dignidade. Nosso Ícaro cai quando uma mãe não consegue auxílio emergencial para livrar-se da violência doméstica. A queda de Ícaro ocorre quando o tráfico passa a ser a única opção de uma juventude dívida e incerta ou quando os milicianos comandam Fakes News dos palácios. Em outras palavras, a queda de Ícaro é legitimada como subproduto de escolhas políticas.

Portanto, destinar todo ódio secular, que aqui chamamos de aparofobia, não é outra coisa senão negligenciar as finas camadas de ceras das asas dos nossos "Ícaros" que quando derretidas impõe um profundo e penoso tombo condenando-os à morte enquanto a vida segue seu curso na distante cidade de Creta chamada Brasil.

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