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A pandemia tem um novo epicentro: Indonésia
Carta Maior
2021-07-29
Por Fira Abdurachman, Richard C. Paddock, Muktita Suhartono

O sofrimento que devastou lugares como Índia e Brasil - com mortes crescentes, hospitais sobrecarregados e falta de oxigênio - chegou ao sudeste asiático

Pacientes da Covid-19 em uma tenda fora do Hospital Geral Dr. Sardjito em Yogyakarta, Indonésia, na quinta-feira. (Ulet Ifansasti/The New York Times)


BEKASI, Indonésia - Aos milhares, eles dormem em corredores, tendas e carros, procurando por ar enquanto esperam por leitos em hospitais superlotados que podem não ter oxigênio para eles. Outros veem os hospitais como inúteis, até mesmo perigosos, e arriscam a sorte em casa.

Onde quer que estejam deitados, enquanto a covid-19 rouba seu ar, as famílias enfrentam caçadas diárias atrás de suprimentos escassos de oxigênio.

A Indonésia se tornou o novo epicentro da pandemia, superando a Índia e o Brasil para se tornar o país com a contagem mais alta de novas infecções. O surgimento é parte de uma onda que atingiu o sudeste asiático, onde os índices de vacinação estão baixos, mas onde haviam controlado o vírus relativamente bem até recentemente. Vietnã, Malásia, Mianmar e Tailândia também estão lidando com os maiores surtos até agora e impuseram novas restrições, incluindo lockdowns e ordens de quarentena.

Na Indonésia, os casos e as mortes aumentaram consideravelmente no último mês enquanto a altamente contagiosa variante Delta varre a densamente populosa ilha de Java, assim como Bali. Em algumas regiões, o coronavírus pressionou o sistema de saúde para além dos seus limites, embora os hospitais estejam tomando medidas de emergência para expandir sua capacidade.

No início deste mês, 33 pacientes do Hospital Geral Dr. Sardjito morreram quando o suprimento central de oxigênio acabou (Ulet Ifansasti/The New York Times)

O Hospital Regional Público de Bekasi, onde alguns pacientes com covid já esperaram dias por tratamento, ergueu grandes tendas nos seus arredores, com leitos para até 150 pessoas. Próximo, na capital Jacarta, há uma longa fila de pessoas que esperam por horas do lado de fora de uma pequena despensa, esperando para encher os tanques portáveis com oxigênio.

Entre elas estava Nyimas Siti Nadia, 28, que estava buscando oxigênio para a família de sua tia, todos com covid.

“Ela é médica e está com medo de ir ao hospital porque ela conhece a situação”, disse a Srta. Nyimas. “Há muitos casos nos quais o paciente não consegue leito ou oxigênio. Se formos ao hospital, temos que levar nosso próprio oxigênio.”

Familiares disseram que alguns hospitais indonésios estavam aceitando apenas pacientes que trouxeram seu próprio oxigênio (Ulet Ifansasti/The New York Times)

Na quinta-feira, autoridades indonésias reportaram quase 57.000 novos casos, o maior total diário até agora – sete vezes mais em comparação com o mês anterior. Na sexta-feira, eles reportaram um recorde de 1.205 mortes, levando a contagem oficial do país para mais de 71.000.

Mas alguns especialistas em saúde dizem que esses números minimizam a disseminação na Indonésia, a quarta nação mais populosa do mundo, porque a testagem foi limitada. Dicky Budiman, epidemiologista indonésio da Universidade de Griffith na Austrália, estima que o verdadeiro número de casos é de três a seis vezes maior.

Na Índia, onde a variante Delta foi identificada pela primeira vez, os casos diários tiveram um pico em mais de 414.000 em maio, mas desde então caíram para cerca de 40.000.

Centro de vacinação no zoológico de Yogyakarta. Apenas 15% dos indonésios conseguiram tomar a primeira dose da vacina. (Ulet Ifansasti/The New York Times)

Mesmo com o bombástico número de casos da Indonésia, oficiais dizem que têm a situação sob controle.

“Se falamos sobre o pior cenário, 60.000 ou um pouco a mais, estamos bem”, disse Luhut Pandjaitan, ministro sênior designado pelo presidente Joko Widodo para lidar com a crise. “Estamos esperando que não chegará a 100.000, mas, mesmo assim, estamos nos preparando agora caso cheguemos lá.”

Muitos indonésios, no entanto, estão enfrentando seus piores cenários há semanas.

(Ulet Ifansasti/The New York Times)

Famílias descrevem o pesadelo de conseguir um hospital que aceite seus familiares doentes. Alguns hospitais estavam aceitando somente pacientes que traziam seu próprio oxigênio, eles disseram. Em outros, pacientes esperavam onde podiam encontrar espaços para se deitar.

Em Bekasi, uma cidade de 2.5 milhões de pessoas que fica ao lado de Jacarta, pacientes foram para o hospital público regional. Para acomodar todos, 10 grandes tendas foram montadas nos arredores, equipadas com leitos para até 150 pessoas.

O marido de Lisa Wiliana estava em uma dessas tendas desde o dia anterior, esperando por espaço em uma ala. Após nove dias doente, ela disse, sua saturação baixou para 84, bem abaixo da faixa de 95 a 100 que é considerada saudável. O hospital estava dando algum oxigênio para ele, mas ela tinha que arranjar mais.

“Estamos esperando por um quarto disponível porque está lotado”, ela disse. “O que mais podemos fazer? O importante é conseguir esse oxigênio, porque ele já teve problema para respirar. Foi assustador.”

Voluntário fabrica caixões para serem distribuídos aos hospitais de Yogyakarta. (Ulet Ifansasti/The New York Times)

Mesmo que a pessoa seja internada, isso não torna o oxigênio uma garantia. No Hospital Geral Dr. Sardjito na cidade de Yogyakarta, 33 pacientes morreram esse mês após acabar o estoque central de oxigênio. A equipe mudou para tanques doados pela polícia, mas já era tarde demais para muitos pacientes.

Hospitais sobrecarregados adicionaram milhares de leitos, mas em média, 10% dos seus trabalhadores da saúde estão em isolamento após terem sido expostos ao vírus, disse a secretária geral da Associação Hospitalar Indonésia, Dra. Lia G. Partakusuma. Alguns hospitais estão usando cinco vezes mais oxigênio líquido do que o normal, e os distribuidores estão tendo dificuldade para alcançar a demanda, ela disse.

“Alguns hospitais disseram, ‘se você trouxe o seu próprio tanque de oxigênio, por favor, use primeiro porque temos um fornecimento limitado’”, ela disse. “Mas não é uma exigência trazer o próprio oxigênio.”

Com os hospitais tão lotados, muitas pessoas escolhem ficar em casa – e muitas morrem lá. Lapor Covid, um grupo sem fins lucrativos que está rastreando as mortes, reporta que ao menos 40 pacientes com covid estão morrendo em casa agora.

A Indonésia registrou mais de 71.000 mortes por Covid-19. (Ulet Ifansasti/The New York Times)

O presidente Joko não decretou um lockdown nacional, mas ordenou restrições em Java e Bali, incluindo fechar locais de oração, escolas, shoppings e clubes esportivos, reduzindo a capacidade de trânsito do público e limitando os restaurantes para somente entrega. As restrições estão planejadas para expirar na terça-feira, mas oficiais estão ponderando seu prolongamento.

Somente cerca de 15% das 270 milhões de pessoas na Indonésia receberam uma dose da vacina contra o coronavírus, e somente 6% estão integralmente imunizadas. A Indonésia tem se baseado fortemente na vacina produzida pela Sinovac Biotech, uma empresa chinesa, que já provou ser menos eficaz do que as outras. Ao menos 20 médicos indonésios que foram integralmente vacinados com a Sinovac morreram com o vírus.

Essa semana, os EUA doaram 4.5 milhões de doses da vacina da Moderna para a Indonésia. Oficiais disseram que a primeira prioridade seria conceder doses de reforço para quase 1.5 milhões de trabalhadores da saúde.

Dr. Budiman, o epidemiologista indonésio na Austrália, previu há mais de um ano atrás que a Indonésia se tornaria um epicentro da pandemia por causa de sua população densa e do seu sistema de saúde fraco. Ele sugeriu mais testes, rastreamento de contatos e isolamento de indivíduos infectados.

(Ulet Ifansasti/The New York Times)

O ministro da Saúde da Indonésia, Budi Gunadi Sadikin, disse na sexta-feira que o país havia aumentado a testagem para cerca de 230.000 pessoas por dia, em comparação com 30.000 em dezembro. Sua meta é 400.000 por dia.

Mas o Dr. revela que a testagem ainda é limitada, observando que nos últimos dias, a parte dos testes positivados havia aumentado para mais de 30%. Especialistas dizem que índices altos são sinais de pouca testagem.

“Por mais de um ano, a taxa de positividade dos nossos testes quase nunca ficou abaixo de 10%, o que significa que estamos perdendo muitos casos e que não conseguimos identificar a maioria das infecções e dos agrupamentos”, ele disse.

Do lado de fora da pequena loja de oxigênio Rintis Usaha Bersama no sul de Jacarta, mais de 100 clientes fizeram fila na rua com seus tanques de oxigênio e esperaram por horas pela chance de preenchê-los.

Alif Akhirul Ramadan, 27, disse que estava pegando oxigênio para sua avó, 77, que estava sendo cuidada pela família em casa. Ele disse que ela havia piorado repentinamente que seu oxigênio estava quase acabando.

“Agora precisa ser reabastecido”, disse Alif, que teve covid duas vezes. “Não tem um tanque reserva em casa. É por isso que preciso reabastecê-lo rapidamente.”


*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares



Conteúdo Original por Carta Maior


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