pt
Reflexão
Anti-Colonialismo
Por que devemos ler os Clássicos? – ou Por que Lenin ainda nos assombra?
Diálogos do Fim do Mundo
2021-04-21
Por Ricardo Bruno da Silva Ferreira

Algum tempo atrás, eu fui indagado por um aluno inscrito na matéria de Teoria Política Contemporânea acerca da razão pela qual a leitura de O Estado e Revolução, obra publicada no ano de 1918, pelo líder bolchevique Vladimir Lenin, constar como conteúdo obrigatório em uma disciplina destinada a discutir temas e problemas políticos do tempo presente. Apesar do aluno não deixar explícito o motivo que o levou a fazer o referido questionamento, entendo que esta indagação deve ser explorada o mais amplamente possível. Ao meu leitor não familiarizado com a área de Ciências Sociais, e particularmente, com o conteúdo programático da disciplina de Teoria Política Contemporânea, o que posso dizer de modo sucinto é que a matéria abarca um apanhado de autores e obras clássicas do período histórico compreendido entre o início do século XX até as duas primeiras décadas do século XXI. Tratamos sobre os mais variados assuntos a partir de uma a pluralidade conceitual, metodológica e epistemológica reunindo autores do quilate de Joseph Schumpeter, Antonio Gramsci, Robert Dahl, Hannah Arendt e Steven Levitsky. Dentre tantos autores debatidos, das mais variadas colorações político-ideológicas, por que a pergunta incide justamente sobre um autor da mais alta importância teórica? Por que não outro? A pergunta do aluno é legítima, e deve ser respondida sem grandes elucubrações teóricas...

Daniil Onischenko. Unplash

À época, a minha resposta ao questionamento do aluno sobre a necessidade em se estudar a obra do revolucionário russo se orientou no sentido de colocá-lo como um autor imprescindível para um determinado tempo e lugar. Discorri sobre o fato de ter sido Lenin o autor mais traduzido no mundo até a década de 1980, especialmente, devido à iniciativa internacional de divulgação da União Soviética por meio das Edições Progresso. Nem mesmo Karl Marx se aproximou de Lenin em relação ao número de publicações em todo este período. Se isto por si só já constitui uma boa razão para sagrar o líder bolchevique como digno de análise em nossa disciplina, argumentei ainda que grande parte da Teoria Política de orientação socialista do século XX teve como referência obrigatória (ainda que em alguns casos sob uma chave negativa) à obra de Lenin abarcando intelectuais como Louis Althusser, Jean Paul Sartre, Theodor Adorno, Marshall Berman, Noam Chomsky, Domenico Losurdo, Slavoj Zizek e Alain Badiou. O que significa dizer é que Lenin é um daqueles autores em que é quase impossível se manter indiferente. É um inventor de uma utopia social que se materializou por meio de uma empreitada revolucionária levada a cabo por milhares de operários, camponeses e soldados em uma Rússia fustigada pela fome e pelas mazelas da guerra imperialista. A vida e a obra do revolucionário russo animaram e deram a tônica da política internacional ao longo do século XX (seja para o bem ou para o mal) inspirando a criação de partidos de esquerda, movimentos guerrilheiros, bem como a organização disciplinada da classe trabalhadora por meio de sindicatos nos mais diferentes países do globo. A influência de Lenin se verifica ainda em processos revolucionários que transbordaram as fronteiras do território russo (Iugoslávia, China, Cuba, Vietnam, Camboja, Coréia ...). Pois bem, apesar da resposta abrangente a uma pergunta aparentemente simples ainda não me dei por satisfeito...

Não é a primeira vez que me deparo com este tipo de questionamento, ainda mais se tratando da obra de Lenin. Diante da recorrência e da relevância do assunto, decidi rabiscar mais algumas notas gerais sem grande rigor analítico. Espero ser minimamente bem-sucedido nesta investida adotando como estratégia argumentativa um percurso pouco habitual. Não me proponho a defender Lenin, mas desejo situá-lo dentro de um contexto maior, como um autor clássico na história do Pensamento Político. A questão que se coloca é a seguinte: o que torna um determinado autor imprescindível, ou melhor dizendo, o que o transforma em um clássico? Em seguida, poderíamos nos perguntar também: Por que Lenin não deveria estar entre os autores clássicos da teoria política? Qual o motivo plausível de tal exclusão? A obra de Lenin não seria mais relevante nos dias atuais? Teria Lenin perdido o seu brilho originário? Provavelmente não conseguirei responder a todas estas indagações, mas ao menos buscarei explicar a importância das obras e dos autores clássicos a despeito do domínio do conhecimento em questão.

Em documentário produzido pela Discovery acerca da obra do renascentista italiano Nicolau Maquiavel, o filósofo político Roger D. Masters apresenta as razões pelas quais, segundo o seu entendimento, a obra O Príncipe teria entrado para a história como um clássico do pensamento político moderno:

Há certos livros que são suficientemente complicados. Eles têm uma mensagem para pessoas diferentes em momentos diferentes porque de algum modo eles tocam em um aspecto fundamental da experiência humana. A República de Platão é um exemplo disso, o Contrato Social de Rousseau, ... O Príncipe de Maquiavel é um livro como esses. Ele lida com um aspecto da vida humana de uma maneira muito profunda. O aspecto central é a essência da função dos líderes e porque os líderes são necessários em qualquer comunidade humana complexa[1].

A passagem citada acima nos possibilita imputar ao clássico à marca da atemporalidade. Uma obra atemporal é toda aquela que transcende qualquer delimitação temporal, isto é, vai muito além da época na qual foi produzida (seja décadas ou mesmo séculos). No prefácio de O Príncipe, o sociólogo Raymond Aron argumenta que este opúsculo não teria conservado apenas a sua juventude, mas especialmente o seu poder de fascínio. Em certo sentido venho a concordar com Aron, pois basta pensar a quantidade de releituras acerca de O Príncipe que pulularam ao longo da história. Teria sido Maquiavel um defensor do absolutismo monárquico ou teria sido um republicano dissimulado? Várias foram as releituras deste clássico do Pensamento Político, e difícil tarefa consiste em dizer qual é a mais acertada. Em uma nota d´O Contrato Social, o próprio Rousseau chegou a defender Maquiavel como um bom cidadão, como alguém obrigado a disfarçar o seu amor à liberdade apesar do seu sórdido herói renascentista, Cesare Borgia: “Fingindo dar lições aos reis, deu-as, e grandes, aos povos. O Príncipe é o livro de cabeceira dos republicanos”[2]. Sem nos aprofundarmos no assunto, o ponto em questão é que a obra de Maquiavel se mantém importante nos dias atuais, o que não significa desconsiderar o contexto histórico ao qual foi produzida, notadamente, uma “Itália” marcada por conflitos internos e pela prevalência de exércitos mercenários.

Há ainda aquelas obras que já são por assim dizer um clássico de nascença. Um destes exemplos é a Poliarquia, texto publicado pelo cientista político estadunidense Robert Dahl no ano de 1971. Em uma área sujeita a tantos modismos, esta obra seminal não perdeu a sua jovialidade e continua a ser tão fundamental hoje quanto na época em que foi escrita. Todo aquele que busca ser introduzido na discussão relativa à democracia contemporânea deve tomar como referência obrigatória este estudo. A Poliarquia, além de analisar os processos de democratização em curso ao longo do século XX, se valeu de fatores eminentemente políticos para comparar os regimes existentes. Mais recentemente, outros dois distintos cientistas políticos, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, publicaram uma obra de repercussão mundial imediata com potencial para se tornar um destes clássicos de nascença, ou seja, uma obra de caráter atemporal, que pode ser lida a qualquer momento a despeito do lugar e da época em que foi produzida.

Gosto de pensar que as obras clássicas são todas aquelas que nos possibilitam pensar em problemas contemporâneos sob o prisma de um autor de uma época qualquer. Em algum sentido, certos enunciados expostos pelo camarada Lenin no longínquo ano de 1918 ainda são válidos nos dias atuais, apesar de todo o esforço liberal de desqualificá-lo como um autor de pouca importância, datado no tempo e que nada teria de relevante a nos dizer. Lenin foi um radical no sentido estrito da palavra: foi à raiz dos problemas. E gostando ou não, a sua obra é tão fascinante hoje quanto na época em foi escrita.


Referências Bibliográficas:

  • DAHL, Robert A.. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015.
  • LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Estado e a Revolução: a doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.
  • LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
  • MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  • O PRÍNCIPE (Nicolau Maquiavel). Produção de Dale Minor. Maryland: Discovery Network, 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LUDOnaqziLo&t=1957s. Acesso em: 15 mar. 2021.
  • ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

  • [1] O PRÍNCIPE (Nicolau Maquiavel). Produção de Dale Minor. Maryland: Discovery Network, 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LUDOnaqziLo&t=1957s. Acesso em: 15 mar. 2021.
  • [2] ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 86.

Ricardo Bruno da Silva Ferreira é Professor Adjunto de Ciência Política e Ensino da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor e Mestre em Ciência Política (UFF). Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais (UFF). Pesquisa sobre Teoria Política e Pensamento Político Brasileiro.



Conteúdo Original por Diálogos do Fim do Mundo


Newsletter