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Em Cabo Delgado a vida tornou-se impossível
AN Original - Alice Comenta
2021-04-14
Por Teresa Cunha

Este artigo faz parte da série Alice Comenta, da autoria da equipa do Programa de Investigação Epistemologias do Sul, publicada no Alice News com cadência semanal.


Foto: Marco Longari / AFP

Desde o início de Outubro de 2017 que a província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, tem estado sob uma enorme tensão provocada por inúmeros episódios de violência que têm conduzido a uma enorme instabilidade social, ao medo generalizado por parte das populações, a um bloqueio informativo por parte das autoridades governamentais do país sobre o que se passa naquele território e a uma das maiores tragédias humanas actuais em África. Pelo menos 40% da população (700.000) está deslocada internamente sendo a maioria mulheres e crianças. Desconhece-se ainda o verdadeiro número de pessoas mortas que resultam quer da violência armada quer da fome e das doenças directamente provocadas por ela. Além disso os danos psico-sociais e espirituais são evidentes e sabe-se que poderão perdurar através das gerações.

Porém tem vindo a ser notório um enorme silêncio, nos meios de comunicação social e nas muitas pesquisas levadas a cabo por especialistas nacionais e estrangeiras/os sobre os conhecimentos que as mulheres têm sobre esta guerra que experienciam nas vilas, no mato, em casa, nos centros de acolhimento, todos os dias. Elas têm estado plenamente activas tanto na imaginação de alternativas quotidianas de vida como empreendem, elas mesmas análises sobre a guerra. A autora da análise que se apresenta em seguida, como é compreensível, não quer ser identificada. Os excertos da sua análise são parte de várias conversas tidas entre nós ao longo de Janeiro e Fevereiro deste ano e os subtítulos, da minha autoria, servem apenas para colocar em evidência a plena participação das mulheres em todos os processos de decisão são cruciais para por fim à violência, iniciar a reconstrução pós-bélica e construir uma paz verdadeira e duradoura.

Primeiro as pessoas fugiam, mas retornavam, fugiam e retornavam
No início parecia que os ataques perpetrados pelos diversos grupos de jovens, que começaram a ser apelidados pelas populações de Al Shabaab, tinham como alvo as instituições das autoridades moçambicanas.

Quando iniciam os ataques procuraram usar a capa de que ‘nós estamos com o povo e queremos vos libertar das opressões que do Estado, para que vocês possam efectivamente conseguir alcançar aquilo que vocês desejam’. Depois, a um dado momento, o governo conseguiu ganhar um pouco a simpatia da população e há um pouco de movimento da população no sentido de poder apoiar o governo e os insurgentes começam a perceber que: ‘olha parece que estamos a perder terreno’.
Então houve um ataque na própria vila de Mocímboa. Eles atacaram bancos, estabelecimentos comerciais e pegaram naquele dinheiro e foram distribuindo. Depois de terem realizado aqueles ataques sucessivos, começaram a motivar as primeiras deslocações das pessoas, mas de uma forma tímida porque o governo sempre procurou trazer um pouco este sentimento de que ‘olha não é algo de grande dimensão, nós vamos controlar, voltem às vossas casas, vão trabalhar a machamba’.
Entre 2017 e 2018 nós tivemos esta situação em que as pessoas fugiam, mas retornavam, fugiam e retornavam.

O medo que a guerra se instale e perdure torna-se real
Porém, as coisas começaram a mudar e instala-se, segundo ela uma segunda fase do conflito. Começam-se a multiplicar os ataques e a propaganda sobre as boas intenções dos insurgentes que suscitam apoios entre as populações que parecem não entender o alcance ideológico e político que lhes subjaz. Assiste-se à inacção do governo e à falta de capacidade de agir para terminar com a violência. As pessoas começam a fugir e a não voltar ou a demorar a voltar aos seus lugares de origem. O medo que a guerra se instale e perdure torna-se real:

Quando os insurgentes apercebem-se que afinal de contas estavam a perder o terreno, eles voltaram a desencadear ataques no sentido de afirmar: nós estamos convosco e o vosso inimigo é o governo. Então começam a fazer esses ataques, pegam aquele dinheiro distribuem na população e publicam alguns vídeos em que se veem eles com camiões cheios de produtos que foram retirados dos comerciantes locais e a população a aplaudir e a dizer em língua local que vocês são os nossos salvadores, vocês é que estão connosco, vocês é que cuidam de nós.
Então mais uma vez a questão das desigualdades sociais a jogar um papel preponderante na forma como é que a população se coloca diante deste perigo. Eu penso que há aqui um pouco o sentimento de que a população não tinha a dimensão do que estava a acontecer e qual o perigo que isto representa para nós em Moçambique.
Então foi uma expectativa de quase todos nós de que o governo saísse na televisão e dissesse olha, nós estamos a conseguir, houve um contra-ataque no distrito X, e que a situação está a normalizar-se. Mas depois dos ataques sucessivos alastraram-se para os outros distritos. Eu acho que de alguma forma isso explica estas saídas maciças da própria população: a população começa a perceber que não há essa protecção que se pretende transparecer que existe, nós estamos numa situação de perigo e que precisamos fazer alguma para podermos nos proteger.

Nós estamos a defender com sangue, com toda vida os que estão lá
A população começa a fugir e já não acredita no que os insurgentes dizem mas também são reveladas as várias formas como eles continuam a controlar muitas das pessoas e como montam as suas redes de informação entre as/os refugiadas. Começa-se a perceber que as teias da violência se reproduzem e geram vítimas e perpetradores todos os dias. Nesta terceira fase a desconfiança instala-se e generaliza-se.

A guerra de Cabo Delgado é um pouco complexa porque existem uma série de acções sucessivas que vão explicando de como é que isto acontece até se chegar aqui. Me recordo que em 2019 houve uma situação em que os insurgentes iam reunindo com a população, principalmente ao nível dos mercados e eles iam usando a religião islâmica de que Deus está convosco, Deus nos comunicou que vocês vão ser abençoados e quando chegar essa bênção vocês não devem negar. Quando eles decidiram apoiar as pessoas antes de desencadear a guerra foram dando dinheiro às pessoas e as pessoas foram investindo. Viu-se realmente ao nível da cidade a proliferação de lojas, de barracas, os mercados cheios, mas não num sentido de uma banquinha pequena, aquela de madeira, mas de banquinhas melhoradas de uma situação para outra.
Mas depois começa a desencadear aquela fase em que diziam que o recrutamento já era compulsivo. Até aquelas pessoas que não tinham noção de porquê estavam a receber aquele dinheiro e quando começaram a fugir eram recrutados compulsivamente. Então é muito complexo, mas de alguma forma acho que a ideia é usar a fragilidade da população para poder satisfazer os seus objectivos. No fundo nós estamos a defender com sangue, com toda vida os que estão lá.

A vida tornou-se impossível é a afirmação última de que se precisa para compreender a dimensão da tragédia.

A vida nos distritos do norte da província tornou-se impossível o que tem tido como efeito a deslocação forçada de centenas de milhar de pessoas que procuram chegar a algumas sedes de distrito, onde parece ainda haver alguma segurança, à procura de refúgio e apoio alimentar. Os principais pontos de chegada destas populações até ao momento são: Ancuabe, Metuge, Montepuez e Mueda e a capital da província, Pemba.


Teresa Cunha é doutorada em Sociologia pela Universidade de Coimbra. É investigadora sénior do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde ensina em vários Cursos de Doutoramento; co-coordena a publicação 'Oficina do CES', os ciclos do Gender Workshop. Coordena a Escola da Inverno 'Ecologias Feministas de Saberes' e o Programa de Investigação Epistemologias do Sul. É professora-adjunta da Escola Superior de Educação do Instituto Superior Politécnico de Coimbra e investigadora associada do CODESRIA e do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique. Em 2017, foi agraciada com a Ordem de Timor-Leste pelo Presidente da República Democrática de Timor-Leste. Os seus interesses de investigação são feminismos e pós-colonialismos; outras economias e economias feministas mulheres; transição pós-bélica, paz e memorias; direitos humanos das mulheres no espaço do Índico. Tem publicados vários livros e artigos científicos em diversos países e línguas dos quais se destacam: Women InPower Women. Outras Economias criadas e lideradas por mulheres do sul não-imperial; Never Trust Sindarela. Feminismos, Pós-colonialismos, Moçambique e Timor- Leste; Ensaios pela Democracia. Justiça, dignidade e bem-viver; Elas no Sul e no Norte; Vozes das Mulheres de Timor; Timor-Leste: Crónica da Observação da Coragem; Feto Timor Nain Hitu - Sete Mulheres de Timor»; Andar Por Outros Caminhos e Raízes da ParticipAcção.

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