pt
Reflexão
Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Por uma Educação assumidamente lenta
Outras Palavras
2020-03-13
Por Roberto Rafael Dias da Silva

Escola contemporânea tornou-se competitiva e meritocrática. Quer a pressa, a pressão permanente. Não suporta a dúvida, nem a singularidade. Contra esta máquina domesticadora, surgem as pedagogias lentas, reflexivas e pós-capitalistas

– Eu tenho agora meu próprio ritmo – respondeu Franklin
– também reprovo mais do que antes o que é apressado
(Sten Nadolny)

O livro A descoberta da lentidão, do romancista alemão Sten Nadolny, traz como centro a história do navegador e pesquisador John Franklin que realizou missões de exploração no Ártico em meados do século XIX. O personagem era caracterizado por sua dificuldade em aprender na escola devido a sua lentidão. Entretanto, quando conseguia desenvolver alguma aprendizagem a realizava com profundidade, encontrando detalhes e percebendo nuances não verificadas pela maioria das pessoas. A sua percepção dos detalhes, com calma e apreço pela atividade desenvolvida, conduziu-o ao mar. Como navegador, explorador do Polo Norte, Franklin descobriu a lentidão e permitiu-se, na bela narrativa literária, assumir outros modos de pensamento.

Uma das circunstâncias narradas no livro de Nadolny diz respeito ao encontro do navegador com Charles Babbage, um inventor da Londres do século XIX. Babbage apresentou a Franklin sua gigantesca máquina de calcular que trabalhava ininterruptamente produzindo tábuas de algoritmos e tabelas náuticas. O inventor descrevia seus novos conhecimentos enquanto Franklin o interrompia para compreender seu raciocínio. Após um determinado período, o navegador o interrompe estabelecendo o diálogo abaixo.

Quando Franklin compreendia alguma coisa meditava sobre o assunto com suas próprias ideias.

– Não. A máquina tem limites – disse ele para irritação do inventor. – Ela só pode calcular aquilo que é encontrável com as perguntas dirigidas, portanto as respostas “sim” ou “não”.

Ele contou a respeito dos esquimós e da impossibilidade de se aprender alguma coisa de novo através de perguntas alternativas.

– Sua máquina não pode se espantar e não pode cair em confusão, portanto também não pode descobrir nada de estranho. O senhor conhece o pintor Willian Westall? – Babbage nem ouvira a pergunta.

– Para um homem do mar o senhor pensa extraordinariamente rápido! – disse ele com voz abafada.

– Não, eu penso com esforço – respondeu Franklin – mas nunca interrompo o pensamento. O senhor conhece muito pouco a gente do mar (STEN, 1990, p. 229).

Tomando esta trama literária como contraponto desta reflexão podemos considerar que nos processos contemporâneos de escolarização há pouco espaço para a dúvida, para a controvérsia e para a lentidão. A cultura do novo capitalismo, bem descrita por Richard Sennett, conduziu-nos a uma centralidade do curto prazo. Mais que isso, a meritocracia – e todos os demais modelos de estratificação das performances – converteram-se nos arranjos institucionais predominantes, condição esta que a escola contribuiu para difundir. A produção de práticas curriculares na atualidade, especialmente nos espaços formativos destinados às juventudes, tem sido caracterizada por uma pressão permanente, qual seja: potencializar o desempenho acadêmico em exames de larga escala e intensificar a capacidade inovadora dos professores e das instituições. Tanto nas redes públicas, quanto nas redes privadas, os currículos escolares são impulsionados a produzir excelência acadêmica por meio do uso de métodos inovadores. Em minha percepção, esta dupla racionalidade pedagógica – de maneira compulsória – impõe aos profissionais da educação a responsabilidade de responder apressadamente a este duplo imperativo. Isto é, em comum entre a pressão por desempenho e a compulsão por inovar podemos reconhecer a impaciência na obtenção de resultados.

Para aqueles que cotidianamente experimentam suas existências nas escolas brasileiras, uma nova gramática é colocada em ação. Velocidade, agilidade, presteza, celeridade e rapidez (e a palavra da moda: assertividade) tornam-se imperativos para as mudanças educativas em tempos de capitalismo impaciente. Uma lógica urgentista e pragmática – com foco na rentabilidade máxima – tende a direcionar os sentidos dos fazeres escolares de nosso tempo. Como sugeri na obra Customização curricular no Ensino Médio, com o advento do neoliberalismo (e os sistemas explicativos que dele se derivam) as escolas têm sido interpeladas a privilegiar performances customizadas e a operar em alta rotação.

Todavia, a formação humana ocorre em tempos e espaços diferenciados – como a metáfora proposta por Nadolny nos sugere –, por pessoas singulares e que reagem de modos distintos às experiências e saberes ofertados pela escola. Em tais condições, esboça-se internacionalmente uma defesa das pedagogias lentas – uma apologia a um movimento de “slow school experiencie”. Duas características merecem destaque neste momento. A primeira delas é o reconhecimento de que a educação é uma atividade lenta, conforme apregoa Joan Domènech. Com isso, precisamos sinalizar que o tempo precisa ser devolvido para a infância e a adolescência, assim como é oportuno lembrar que uma educação lenta é parte central de um trabalho de efetiva inovação educativa. A segunda característica, extraída do diálogo com Nuccio Ordine, trata-se de uma resistência ao utilitarismo hoje predominante. Afastando-se da lógica da mercadoria, consideramos prudente seguir ensinando aquilo que, por muitos, é tomado como “inútil”. Explica o filósofo italiano que os saberes que não têm uma finalidade em si mesmos “podem desempenhar um papel fundamental no cultivo do espírito e no crescimento civil e cultural da humanidade”. Pela interlocução com a obra de Sten Nadolny, gostaria de acrescentar: construir uma educação pós-capitalista passa pela redescoberta da lentidão!


Referências:

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Customização curricular no Ensino Médio: elementos para uma crítica pedagógica. São Paulo: Cortez, 2019.

STEN, Nadolny. A descoberta da lentidão. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.



Conteúdo Original por Outras Palavras


Newsletter