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Escola de Inverno Ecologias Feministas de Saberes II - Saberes e Práticas para a C[u]idadania 
de 27 a 31 de Janeiro de 2020
AN Original - Alice Comenta
2019-10-15
Por Teresa Cunha

Este artigo faz parte da série Alice Comenta da autoria da equipa do Programa de Investigação Epistemologias do Sul, publicada no Alice News com cadência semanal.


Podia escrever um artigo sobre esta segunda edição da Escola de Inverno Ecologias Feminista de Saberes que vai ter lugar no CES de 27 a 31 de Janeiro de 2020. Pensei e resolvi que o mais importante é falar da tal [Es]Cola que Nos Une. Chamei a Wezu para que ela nos contasse a sua estória. Wezu se apruma, se cala por um longo momento. Se concentra nos vossos olhos e começa a recitar acontecidos da sua vida.

Nasci ao lado da guerra. Duma guerra que não estava declarada nos tratados mas que matava todos os dias muita gente. Em redor da minha cidade, os musseques acoitavam xs camponesxs e a gente trabalhadora de onde saíam para trabalhar, de madrugada, nas fazendas, nos negócios e nas casas dxs colonxs brancxs.

Na minha casa o meu pai, que se achava um domador de pretas e pretos, era-o à custa do revólver que lhe pendia da cinta, sempre. Ou então junto à cabeça enquanto dormia. Distribuía fuba podre pelas mulheres da casa para elas comerem. A minha mãe, que se achava na condição de prisioneira de tal casamento, ia substituindo, como podia, as latas de fuba podre pela farinha boa que arranjava nas trocas que ia fazendo pelo milho ou as costuras dela. Uma economia solidária que ela ia tecendo na clandestinidade contra o domador de pretxs e de mulheres desobedientes. A guerra em casa e a guerra nas sanzalas e musseques são, até hoje, as razões e as consequências que me trazem, sempre de volta, às Ecologias Feministas de Saberes.

Se vos conto isto é para vos dizer que é, neste sofrimento primordial, de que fui testemunha e vítima, que encontro as forças concretas para conseguir olhar e compreender o mundo. Deixem-me tentar explicar porquê. A guerra e o capitalismo são duas faces da mesma moeda. O capitalismo só pode ser guerreiro e assassino já que vive da exploração, da apropriação, do mais cruel despojo. Nem preciso de ir mais longe porque todas sabemos o quanto disto é a vida de tanta gente no mundo. A venda das armas e de toda a parafernália bélica, a ideia que a violência é eficaz contra a violência, o arrebanhar de milhões de jovens nesse delírio de conquista, tudo isso, e muito mais, é a guerra. Mas há uma coisa de que não se fala tanto; é que debaixo da guerra há gente que pretende, teimosamente, ser gente. Que vos pareça uma coisa meio doida, meio impertinente, é mais do que possível, eu até aceito sem muito discutir a vossa surpresa. Mas é a partir da troca das latas de fuba e de farinha que eu melhor compreendo o que está em causa quando se trata de cuidado, insurreição e paz.

Depois cresci, naquela casa com três quartos, éramos treze pessoas de três gerações. Para comer faziam-se turnos porque a mesa não chegava e o trabalho era repartido segundo a idade e a maturidade exigida para cada tarefa. Era uma coisa de todxs para todxs. Não posso afirmar que a opinião dxs mais novxs fosse tão importante como a dxs mais velhxs. Aí havia diferenças importantes que eram tidas em consideração. Mas também foi aí que comecei a aprender que, de facto, a igualdade só se vive nas diferenças e no respeito por elas. Não é de admirar se vos disser que o nosso caixote do lixo quase nem existia. Remanejar os recursos, desde a roupa à energia gasta, fazia parte da nossa educação. Os livros eram coisas preciosas que xs mais novxs encapavam e protegiam de poeiras. Os cocós das galinhas recolhidos e espalhados pelos canteiros. As couves eram cortadas para a sopa da gente e para os petiscos das galinhas. Enfim, diriam as ecofeministas, tudo aquilo era uma economia do cuidado em que no centro estava a vida e a dignidade de um colectivo. Um colectivo que sabia o que era preciso fazer quando a política torpe nos cobre de guerras, de medos, de fugas e de pobrezas várias.

Mas queria deixar claro que a vida assim não era sobrevivência. Entre parêntesis deixem-me dizer-vos que essa coisa de qualificar a vida e as lutas dxs pobres, melhor se disser, empobrecidxs, como sobrevivência é mais um daqueles truques capital-desenvolmentistas para desvalorizar tudo o que, afinal, é a vida da maioria das pessoas do mundo. Então, digo que não era sobrevivência de que se tratava, mas sim de uma narrativa colectiva de dignidade que todxs aprendemos desde cedo e, amorosamente, com xs nossxs mais velhxs.

Nessas experiências concretas de criação contínua de vida, de criação de imaginários económicos outros, de ideias para crescer juntxs, sempre de mãos dadas com os bichos, as árvores, a água, o ar e as demais criaturas, fomos construindo e experimentando saberes.

As forças do capitalismo, do machismo e do colonialismo nos querem paradas mas desenganem-se porque afinal, nos revoltam e nos fazem procurar outras formas de viver que, todos os dias, estão à nossa espera para serem experimentadas. Cada caminho escolhido se enchia de pedras que começavam a juntar-se em cada uma das nossas cabeças.

É bem feito, é bem pensado se me perguntarem agora:
- mas que raio têm a ver as latas de fuba podre ou de farinha boa e cheirosa com o capitalismo, o machismo e o colonialismo? Na ciências, muito mais nas sociais, é preciso prestar atenção à integralidade dos limites, às divisórias entre público e privado, entre passado e presente, entre o eu e o colectivo!!!
Dizem muitxs.

Eu digo que biombos são coisas que foram inventadas para dissimular e esconder. Por isso, as divisórias não me servem. Entre dúvidas e certezas prefiro as primeiras porque me fazem ir, caminhar, procurar, sentir que ainda há espaço e há tempo para preparar e levar, adiante, a revolta, o redemoinho que transforma. Pois, quando o Boaventura teoriza sobre as Epistemologias do Sul dizendo que o conhecimento emancipatório, no nosso tempo, é aquele que se constrói nas resistências e na lutas, no sofrimento humano, ele fala, mesmo sem saber, das minhas latas de farinha e dos cuidados lá de casa que acabaram por expulsar, definitivamente, o domador de pretxs e de mulheres desobedientes.

Chamo-me Wezu e de tudo o que fiz o que mais aprendi é que os trabalhos das mulheres, que expulsam os domadorxs de pretxs e outrxs desobedientes, não reproduzem a vida mas a produzem, sempre e a toda a hora. Foi isso com a mãe que trocava as latas podres por farinha cheirosa, foi isso com a avó que tratava de manter as flores de frangipani cheirando nas roupas.

Aquela guerra, a tal que me viu nascer e que eu vi recrudescer, feita por homens de farda, da caserna, do ministério ou do clube de caça, esses domadores de pretxs que as mulheres desobedientes esconjuram para lá da memória e da vida, por cima só tem cadáveres e por baixo terríveis bichos de bocarras a sangrar.

Mas apesar dela, lá no meio, de uma forma insuspeitada, as mulheres continuam a lavrar aquilo que apenas interessa: as vidas vividas como devem ser vividas. Querem lá maior rebeldia do que esta?

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