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Reflexão
Original
Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Memórias do cais e resistências 
AN Original
2019-10-14
Por Marcos Silva

Nos últimos anos tenho participado e desenvolvido estudos sobre a temática das relações étnico-raciais, em particular da população negra na América Latina, no âmbito do projeto POLITICS. Ao inserir-se no universo desses estudos, e situar o assunto no campo da Educação, a investigação tem proporcionado uma imersão no campo, permitindo conhecer diferentes culturas, como a linguagem, as tradições, a religião, os costumes, além de uma grande diversidade étnica, bem como processos históricos, políticos e sociais. Desse modo, observando questões fundamentais para a compreensão do racismo nas sociedades contemporâneas e suas raízes históricas. Nesse contexto, conheci no ano de 2019 dois espaços de “memória sensível”, de um lado, o “Cais do Valongo”, situado no Rio de Janeiro, Brasil. De outro, o “Mémorial de l'Abolition de l'Esclavage”, em Nantes na França.

O primeiro, o Sítio Arqueológico Cais do Valongo, é localizado no centro do Rio de Janeiro, na região da antiga área portuária da cidade, na qual o antigo cais de pedra foi construído para o desembarque de africanos escravizados atingindo o continente sul-americano. Em 1811, com o incremento do tráfico e o fluxo de outras mercadorias, foram feitas obras de infraestrutura, incluindo o calçamento de pedra de um trecho da Praia do Valongo, que constitui o Sítio Arqueológico do Cais do Valongo. O Cais foi soterrado por uma reforma urbana do início do século XX, e foi “redescoberto” durante as obras no porto levadas a cabo nos últimos anos. Com a construção do Museu do Amanhã, o local foi revelado, em 2011, durante escavações das obras, e se tornou um marco material das raízes africanas nas Américas.

Foto do autor: Cais do Valongo-Rio de Janeiro, Brasil.

O Cais do Valongo faz parte da lista da UNESCO desde 9 de julho de 2017, como patrimônio da humanidade. Nas palavras da historiadora e pesquisadora Mónica Lima, outros sítios históricos marcados pela presença afro-brasileira já tinham recebido este reconhecimento, por exemplos: os centros históricos das cidades de Salvador, na Bahia, São Luís, no Maranhão, entre outros. Porém, no caso desse bem situado na cidade do Rio de Janeiro, “o valor universal excepcional que lhe foi atribuído teve em sua justificativa central o caráter de lugar de memória do tráfico atlântico de africanos escravizados e de resistência cultural e política da população negra a uma longa história de violência e exclusão. O cais foi, no início do século XIX, o centro do local de desembarque do maior número de africanos escravizados que chegaram vivos às Américas”.

O Cais do Valongo desperta a memória de eventos dolorosos, tristes e traumáticos e que remetem a história de violação de direitos humanos. Como bem observou a historiadora Monica Lima, “a história do Cais do Valongo pode ser considerada um exemplo de processo de identificação e apagamento do passado e da criação de tradições”. Vale ressaltar que a apropriação oficial do reconhecimento do Cais do Valongo pelas autoridades não se realizou sem críticas de movimentos sociais negros, a comunidade negra, moradores e ativistas e pesquisadores, “trata-se de investir na resistência e na luta que se constroem por meio do conhecimento. E de um resgate da força das nossas relações com África”.

O segundo, O Mémorial de l'Abolition de l'Esclavage, foi aberto ao público em 25 de março de 2012. Está localizado no Quai de la Fosse, o ponto de partida simbólico de muitos navios negreiros que navegaram em direção à África, é um importante memorial dedicado ao tráfico de escravizados e à sua abolição. É um lembrete da História de Nantes, como o porto de comércio de escravizados na França do século XVIII, prestando homenagem àqueles que lutaram e  ainda lutam, cotidianamente em defesa de direitos, e que a juventude negra nas sociedades contemporâneas, em especial no Brasil, possa trilhar uma trajetória de vida e educacional com menos desigualdades sociais, mais políticas públicas, mais apoios e menos barreiras raciais, e acima disso a vida.
Ao longo das margens do Loire, entre a ponte Anne-de-Bretagne e a passarela Victor-Schœlcher, uma caminhada plantada de 1,73 acres é revestida por 2.000 inserções de vidro, 1.710 das quais contemplam os nomes dos navios negreiros e as datas em que os escravizados deixaram o porto de Nantes. As 290 inserções restantes denominam os postos de comércio de escravizados e os portos de escala e portos na África, nas Américas e no Oceano Índico. Os passos percorridos guiaram-nos por esse caminho triste e doloroso na nossa história, permitindo uma tomada da consciência da magnitude da tragédia no meu próprio ritmo. Vale ressaltar que de meados do século XVII, a meados do século XIX, a França organizou pelo menos 4220 carregamentos de escravizados, a maioria deles liderada pelos armadores de Nantes. Os navios de Nantes transportarão mais de 550 000 escravizados.


Foto do autor: Mémorial de l'Abolition de l'Esclavage, Nantes, França.
O tráfico de escravizados e a abolição fazem parte da história e identidade da cidade de Nantes, França. Do século XVII ao século XIX, o comércio de escravizados fez parte das atividades comerciais de Nantes e contribuiu para o acúmulo de riqueza na cidade. A partir da década de 1980, o passado há muito silenciado do comércio de escravizados da cidade começou gradualmente a surgir. Em 1985 foi organizado em Nantes um Colóquio internacional sobre o tráfico de escravizados, ainda, segundo informações que captamos da página do “Mémorial de l'Abolition de l'Esclavage”, identificamos que  a cidade se recusou a financiar o evento "Nantes 85", que propunha lançar programas de pesquisa e cultura sobre a temática, desencadeando uma forte reação e resposta de Associações e do público envolvido neste projeto. Em 1992 foi realizada a primeira exposição temporária dedicada ao tráfico de escravizados e à escravidão, "Os Grilhões da Memória", que foi inaugurada em Nantes e teve grande sucesso. A exposição durou pouco mais de um ano e ajudou o público a entender o comércio de escravizados e o papel desempenhado por Nantes. Em 1998, foi criado um coletivo de Nantes que uniu várias associações para comemorar o 150º aniversário da Abolição. Em 24 de abril de 1998, uma iniciativa da Associação Mémoire de l'Outre Mer originou a inauguração de uma escultura comemorativa no Quai de la Fosse. A escultura foi vandalizada alguns dias depois. Em junho de 1998, a cidade decidiu erguer um monumento comemorativo, o” Mémorial de l'Abolition de l’Esclavage”. As Associações em Nantes continuam atualmente promovendo a conscientização histórica e a memória e mostram sua dedicação à liberdade e aos direitos humanos. Um não ao silenciamento!


Marcos Silva é Doutor em Psicologia Social, pela PUC-SP, Brasil. Investigador em pós-doutoramento no Centro de Estudos Sociais (CES), Universidade de Coimbra (UC), Portugal e integrante do projeto (725402 — POLITICS — ERC-2016-COG).

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