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Reflexão
Anti-Heteropatriarcado
Travestis nos Anos de Chumbo: resistir é o caminho!
Carta Maior - O Portal da Esquerda
2019-04-15
Por Armando Januário

Contemos também as histórias de pessoas que revolucionaram as normas de gênero da sua época, e, diante do totalitarismo, seguiram resistindo

Créditos da foto: Martinha, 62 anos, foi presa mais de 200 vezes durante os Anos de Chumbo. (Karol Azevedo)

Todxs sabemos o significado do golpe de 1964. Muitxs se encontram até hoje desaparecidxs, centenas foram mortxs e a tortura, para quem sobreviveu, é uma lembrança devastadora. Entretanto, a maioria dos relatos é proveniente de pessoas cis, aquelas com sexo de nascimento e gênero alinhados, a exemplo de uma pessoa que nasceu com pênis e se sente homem, sendo socialmente reconhecido como tal.

Obviamente, todo relato de crueldade ocorrido naquele período deve ser denunciado, para que a sociedade perceba mais um retrocesso do atual governo, quando autorizou a celebração de um momento tenebroso da nossa história, ainda longe de ser totalmente esclarecido. Por outro lado, é necessário reconhecer que, além das pessoas cis torturadas e mortas, havia outro grupo social sendo perseguido, torturado e violado. Pessoas que transcenderam as normas de alinhamento obrigatório sexo-gênero e, por isso, foram duramente punidas. Pessoas que, a partir de seus corpos, mesmo hoje, representam uma ameaça no inconsciente de grande parcela da população e sinônimo de tráfico de drogas, prostituição e todo tipo de ilícitos. Precisamos reconhecer que, por entre a hegemonia das narrativas de pessoas cis massacradas pelo governo militar, naqueles tristes anos, outras pessoas, apenas por existir, estavam sob a mira de um asqueroso Estado. Estamos falando das travestis.

O modelo de Estado implantado a partir de 1964 foi, de maneira gradativa, especialmente após o Ato Institucional 5 (AI-5), eliminando toda forma de oposição. A imprensa foi silenciada e o Congresso Nacional fechado. Qualquer tipo de manifestação era violentamente reprimida. Artistas e intelectuais partiram para o exílio. Mas, isso não era suficiente para os generais e seus asseclas dos Anos de Chumbo. Era necessário, em sua visão repleta de preconceitos, varrer do Brasil pessoas consideradas indesejáveis, por conta da sua identidade de gênero e sexualidade. Nesses termos, o governo militar implementou técnicas de perseguição às travestis, visando unicamente seu extermínio, por considerá-las socialmente perigosas, transmissoras de HIV/AIDS, violentas, enfim, portadoras de todo o mal. De fato, havia um planejamento de Estado, a fim de aniquilar a população travesti. Naquele momento, sair à rua durante o dia poderia significar sua prisão, tortura e desaparecimento. A situação era tão grave, que, quando presas, elas se cortavam; o sangue derramado, para a polícia saturado de doenças, significava alto risco de contaminação por HIV/AIDS. Assim, elas eram liberadas. Nem todas tinham essa sorte. Muitas eram torturadas, levadas durante a madrugada para praias e lançadas em mar alto, outras tinham seus pertences subtraídos pelos policiais e só eram liberadas com trajes socialmente masculinos.

Marta Sá, ou Martinha, é uma dessas pessoas. Rejeitada pela família, essa baiana encontrou na prostituição, ainda criança, a única forma de sobreviver. Presa inúmeras vezes, ela relata o roteiro de agressões praticadas pela polícia, à época: invasão do quarto em que dormia, sendo por vezes arrastada para o Instituto Médico Legal (IML) para limpar cadáveres. Em outras ocasiões, era levada à delegacia e tinha a cabeça raspada. Socos, coronhadas e abusos sexuais também faziam parte desse repertório repugnante. A violência do Estado era tamanha, que, certa vez, ela e algumas amigas solicitaram da Justiça um habeas corpus coletivo, para poder caminhar livremente pelas ruas de Salvador, sem a ameaça de ser presas. Hoje, aos 62 anos, Martinha sobrevive com um auxílio social, após ter sua casa incendiada e sofrer dois acidentes vasculares cerebrais.

Histórias como a de Martinha são frequentes no período militar. Mas, a transfobia persiste hoje. O Brasil continua a ocupar o primeiro lugar no ranking de assassinatos contra pessoas trans e travestis, embora pequenos avanços tenham sido acessados. Chama à atenção a capacidade de resistência de pessoas, que, mesmo privadas de condições básicas para existir, seguem existindo. Essa habilidade de se reinventar e persistir na busca por seus direitos foi fundamental para superar 1964 e continua sendo a principal ferramenta para enfrentar o conservadorismo de grupos fundamentalistas estruturados no cenário político, como a bancada evangélica. A resiliência, por vezes posta à prova, proporcionou a formação da militância e das poucas conquistas.

Contemos as tristes histórias da ditadura. Elas nos ajudarão a compreender nossos erros e corrigir nossos descaminhos políticos. Sobretudo, porém, contemos as histórias de pessoas que revolucionaram as normas de gênero da sua época, e, diante do totalitarismo, seguiram resistindo. E seguem, mesmo brutalizadas, se insurgindo contra todas as adversidades.


Armando Januário dos Santos: Sexólogo. Psicanalista em formação. Concluinte da graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 



Conteúdo Original por Carta Maior - O Portal da Esquerda


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