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Boaventura de Sousa Santos: um intelectual que não tem medo de existir e resistir
2018-11-15
Por Nilma Lino Gomes

Tributo a Boaventura de Sousa Santos
O CES celebrou seu 40º aniversário com a conferência internacional “A imaginação do futuro. Saberes, experiências, alternativas” entre os dias 7 e 10 de novembro de 2018, em Coimbra. Este evento foi organizado também para homenagear Boaventura de Sousa Santos, que fundou e dirigiu a CES durante quatro décadas. O Alice News contribui para a homenagem com este e outros pequenos conteúdos publicados a 15 de novembro.

A relação do Brasil com o sociólogo Boaventura de Sousa Santos e vice-versa é uma relação diferente. Intelectual? Sim. Política? Sim. Epistemológica? Sim. Emocional? Sim. É como se a sociedade brasileira, principalmente os setores que lutam pela emancipação social na Universidade e nas lutas sociais, tivesse envolvido o Professor Boaventura e, ao mesmo tempo, sido envolvida por ele. Isso acontece de tal forma que a nossa sociedade, com a sua dinâmica complexa, parece estar emaranhada nas emoções, nas lembranças e na sua produção intelectual e poética. O Brasil, hoje, faz parte do coração, do corpo, dos desejos, da racionalidade e das emoções do Professor Boaventura de Sousa Santos.

Boaventura é um intelectual que não tem medo de existir e resistir. Por isso, independentemente da localização geográfica de um problema, uma crise da democracia, uma afronta aos direitos, uma cristalização da ciência, ele explicita a sua opinião por meio de artigos, vídeos, livros, poesia, rap, seminários, palestras, conferências, idas a campo, conversa com governantes, com movimentos sociais, passeios, festas, enfim, onde há vida e efervescência epistemológica, social, cultural, jurídica e política, lá está ele. Não somente o intelectual e o ativista. Mas o homem comprometido com as mudanças do próprio tempo. Ele não teria produzido tudo o que produziu se não fosse um intelectual que faz questão de estar no mundo e com o mundo.

   Foto @CES/CarlosBarradas

A sua teoria está constantemente aberta ao diálogo consigo mesmo e com as leitoras e os leitores. Ele conversa com os seus próprios textos à luz dos momentos em que vive, dos novos autores e autoras que conhece, da sua proximidade com os movimentos sociais, com a realidade africana, latinoamericana, europeia, estadunidense e asiática, com o mundo das artes, da música, da poesia, da literatura e da política. Observa as convergências e as divergências do quadro teórico criado por ele e por outros intelectuais e movimentos sociais que o inspiram para, então, reescrever, recriar e continuar produzindo conhecimento. Sempre no desafio de fazê-lo junto com os sujeitos do conhecimento, e não para os sujeitos do conhecimento com os quais trabalha.

Uma das características do Professor Boaventura que me fascina é a sua capacidade de – partindo de um núcleo central do seu pensamento, que tem sempre como foco questionar a hegemonia que o conhecimento científico adquiriu no mundo e as injustiças globais – reinventar a si mesmo e a sua produção teórica. A impressão que fica é que, ao terminar de produzir um texto com a densidade que todos conhecemos, Boaventura – graças a sua capacidade de se deixar tocar pela vida – já olha para ele buscando algo novo, alguma incompletude, alguma forma de fazê-lo avançar.

Ele é um intelectual ativista que se deixa provocar pela vida como homem e intelectual. Ao fazer isso, inevitavelmente ele provoca a própria produção do conhecimento e nos desafia a sair do lugar, a produzir teoria, a indagar os conceitos, a não nos esquecermos das nossas origens, a retirar da invisibilidade sujeitos e temáticas ativamente produzidos como invisíveis nas disputas entre conhecimento e poder. Isso faz parte da sua transformação epistemológica.

Desassossego com a ciência moderna, pulsão vital, rebelião, emancipação social, pós-colonialismo emancipatório, epistemologia libertadora, subjetividades inconformistas e rebeldes, imagens desestabilizadoras, Universidade Popular dos Movimentos Sociais, Fórum Social Mundial, sociologia das ausências e das emergências, tradução intercultural, ecologia de saberes, concepção intercultural dos direitos humanos, revolução democrática da justiça, o direito dos oprimidos, o direito ao trabalho, a difícil democracia, demodiversidade, corporeidade, música, literatura, poesia, dança, samba, rap, eloquência, contestação, indignação, discursividade, Epistemologias do Sul, janela de Quintela.

São algumas palavras que me fazem lembrar o intelectual, o poeta, o sociólogo, o educador, o ativista e o querido amigo Boaventura de Sousa Santos.

Desejo-lhe um feliz aniversário!


*Nilma Lino Gomes é Professora Titular da Faculdade de Educação da UFMG. Integrante da equipe do Programa Ações Afirmativas na UFMG

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