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Reflexão
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Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Reencontrar a águia interior: a tarefa política da nossa geração
AN Original
2020-03-18
Por Rafael dos Santos da Silva

A geração de brasileiros e brasileiras da qual derivo é obrigada a assistir diariamente o voo de galinha do seu projeto civilizacional. É açodada em sua inteligência e constantemente convidada a sufocar a águia que há dentro de si, para contentar-se com o insuportável destino marcado por ciscos e bicos da galinha. Para refletir sobre o estágio democrático, político e económico quero recorrer a potente metáfora da águia e da galinha brilhantemente refletida por L.Boff para a partir dela defender que “todo aprendizado tem uma data” inclusive este em que estamos a enfrentar no Brasil.

“Certa vez um naturalista fora visitar um fazendeiro que havia colocado um filhote de águia junto com filhotes de galinhas. Ali a águia fora acostumada com a vida de galinha, sempre a espera de um punhado de alimento, presos a lógica de buscar pouco e igualmente contentar-se com pouco. O naturalista percebeu a situação. Incomodado resolveu agir sobre aquela maldade que atrofiava a águia agora já crescida. Por duas vezes, ao sustentar a ave sobre seus braços recorria a apelos de identidade com a esperança de recobrar seu destino e fazê-la ir ao encontro da sua história, dizendo: “já que eis águia, já que pertences ao ar e não a terra, voe...” Mas, asas e pensamentos estavam atrofiadas de modo que preferia regressar para o meio das galinhas. Não faltava quem dissesse “era virou uma simples galinha” até que uma última tentativa fora feita. Levaram-na a um penhasco onde o amanhecer do sol dourava o cume das montanhas. Naquele momento a águia fora desafiada a olhar o abismo que lhe impunha medo, mas igualmente o horizonte que lhe resgatava a esperança. Entre esses dois sentimentos, a águia recobrava seus instintos adormecidos, restaurava suas forças e compreendia o desafio por vir. Então, o naturalista sussurrou no seu ouvido: águia, tu eis águia. Tu pertences ao ar e não a terra, por isso voe...” Nesse momento, a águia fitou o sol a surgir imponente no horizonte, se ergueu sobre suas asas, buscou impulsos sobre suas pernas e voo soberana para reencontrar seu projeto último de liberdade.”

A nossa geração filha que é da águia, fora posta em terreno cercado, obrigada a conviver como galinhas. Naturalizamos o fato de sobreviver de migalhas e a não ousar... Nos acostumamos com as novas configurações sociais que se aproximam dos limites críticos de convivialidade. As migalhas oferecidas pela teoria económica defendida pelo mainstream, colocou a razão positivista na frente da solidariedade. A modernidade, e em especial a urbanidade, estabeleceu raízes naquilo que o filosofo Karl Otto Apel denunciou como sendo o processo de “autonomização acentuada da economia”. Em outras palavras, a migração da economia real (pautada no cuidado das pessoas) para uma economia tecnicista (dirigida por códigos e robores).

Um rápido exame nos dados recentes do IBGE, é possível observar o desenhar de um perigoso caminho escolhido recentemente pela elite brasileira. Segundo o instituto os níveis de concentração de renda alcançaram patamares insustentáveis. A renda do 1% mais rico cresceu 8,4% em detrimento dos 30% mais pobres que viram suas riquezas diminuírem em 4%. A distância entre quem ganha mais e quem ganha menos chega a alarmantes 34 vezes. Um verdadeiro apartheid social. Para ficar claro, estar-se a falar aqui de quem ganha (per capta) R$ 158,00 mês contra R$ 27.744,00 ou U$ 6.326 contra U$ 35,97. Não há limites de sustentabilidade dentro desses parâmetros distributivos.

No terreiro das galinhas há um verdadeiro nó godio cada dia mais difícil de ser desatado. Isso porque a economia tecnicista é mais rentável para uma pequena parte da sociedade, especialmente aqueles que exercem poder sobre os códigos computacionais, e automaticamente torna-se menos rentável para a maioria social. Manfredo Oliveira  na sua obra “Ética, Direito e Democracia” aponta alguns resultados do crescimento tecnológico e seu mal uso na economia ao indicar que “o aumento significativo da produção de riquezas pela via tecnológica, faz surgir também uma quantidade muito maior de miseráveis” o resultado dessa crise não pode ser outra senão a degradação social, a “globalização da violência” e a destruição ecológica.

Temos por assim dizer uma economia adoecida cuja eminência dar-se pela predominância da propriedade privada sem referências éticas, nem tão pouco responsabilidade coletiva. A sociedade e a economia estão numa grande encruzilhada. Uma potente e perigosa rota de colisão que se abre a uma verdadeira “crise da civilização tecnicista”.

Ao dominar a informação, a economia e as leis, a sociedade elitista produz o atraso. O lugar de voos rasteiros e cabeças baixas. No terreno das galinhas, aonde é estabelecida um movimento carcomido para manter o status-co, elege-se como inimiga as instituições que aderem a resistência histórica, como os sindicatos e toma-se de assalto aquelas que deveriam regular a sociedade. Pensava-se que esse tipo de classe estivesse interessada em dominar os modelos tradicionais da economia como os fluxos industriais, comerciais e de serviços. Mas, o caso do Brasil é emblemático para se observar que esses comportamentos não tem limites. Hoje se assiste a política sem escrúpulos com forte participação de milicianos, o tráfico internacional de drogas teve assento em voo presidencial, e o tráfico de armas será combatido pela oficialização?

No terreiro das galinhas ocorre a dronização da democracia. Boaventura Sousa Santos atesta que a dronização é o próprio sequestro das instituições e do estado de direito. Dar-se no regresso ao estado de exceção via força e pelo alto grau da vigilância e do controle. A democracia dronizada é, portanto, uma sociedade engessada pelo medo, que não evolui tão pouco guarda a expectativa no futuro, porque o presente lhe serve enquanto camisa de força. É a própria personalização do nosso estado de galinha.

A dronização da democracia caracteriza-se pelo acrisolamento da liberdade e imposição do medo a constituir-se numa eterna narrativa do acomodamento fazendo supor não haver disputa, mas apenas conformação. Não há possibilidade, mas somente a espera que se cumpra o destino dado. Um verdadeiro projeto de medo a nos obrigar a ciscar cabis-baixo em busca de migalhas. Grassa sob o terreno das galinhas um projeto de morte.

A ideia freiriana nos lembra que “toda aprendizagem tem uma data” e nesse sentido, compreender o tempo presente é escutar alguém sussurrar “...voe, tu eis feito para o ar e não para a terra...” A minha geração já escuta esses sussurros?

Passa da hora de irmos ao pico da montanha a esperar o sol raia. Isso significa reocupar os espaços políticos mais próximos a nós, como os sindicatos de nossas categorias, juntarmos força e sabedoria junto as comunidades tradicionais, construir no conjunto aos mais vulneráveis como as crianças e os idosos uma contracultura do conformismo. Estabelecer relações respeitosas e comprometidas com grupos étnicos historicamente açodados em suas riquezas e entender que não há voo de águia que não contemple a beleza da ecologia.

O peso da história recai sobre os ombros de minha geração e consiste fundamentalmente em “aprender a aprender” a aprendizagem imposta por esses tempos sombrios em que estamos a flertar com o fascismo. Gerações anteriores dão conta que a saída passa pela resistência organizada e, sobretudo coletiva. A partir da metáfora da águia e da galinha, devo dizer que precisamos fitar os olhos na intensa luz que se abre impunimente, ter medo do abismo que se abre sob os pés, mas principalmente se apegar na força e na esperança apontada no horizonte cintilante.

Para finalizar, recorro novamente a L. Boff quando bem disse que “cada um hospeda dentro de si uma águia. Sente-se portador de um projeto infinito”. Precisamos aprender a reencontra-la para aí quem sabe, reencontrar nosso projeto infinito. Quem sabe não encontremos aí o impulso necessário para abrirmos as asas, alçar voo e ir ao encontro da nossa liberdade?

Para tanto, é preciso superar o medo e alçar a esperança das alturas. Voar de forma soberana rumo a liberdade! Afinal, “Tu eis águia. Tu pertences ao ar e não a terra, por isso voe...


Rafael dos Santos da Silva é Professor Universidade Federal do Ceará – UFC e Doutorando em Sociologia - UC

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