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O novo velho continente e suas contradições: As agitações que tiram o sono da Europa
Carta Maior
2020-01-06
Por Celso Japiassu

Eleições no Reino Unido sob o signo do Brexit e grande vitória da direita; agitações com grandes protestos na França; posse confusa de um governo à esquerda na Espanha e o fortalecimento cada vez maior dos extremistas de direita na Polônia e na Hungria, além de tantas outras manifestações de irracionalismo, tiram o sono da Europa. O velho continente que sonha com a paz conduzida pela união entre os países que o compõem estremece e regurgita diante do que parece uma certa indigestão política.

Se tem sido em toda a sua longa história o cenário preferido das grandes contradições do seu tempo, cada vez mais a Europa se vê palco também do acirramento da luta de classes e dos conflitos provocados pela enorme crise do capitalismo que eclodiu em 2008 e que ainda não enxergou a data em que irá terminar.

Na busca de sobreviver, os sistemas conservadores iniciam reformas econômicas e provocam impactos sociais que se traduzem nos protestos que tendem a conflitos de rua, à insegurança e à perplexidade no seio das classes médias órfãs de ideias e conduzidas pelos algoritmos da internet. Na origem desses conflitos estão as reformas exigidas pelo sistema que se auto alimenta cada vez mais profundamente nos ganhos financeiros. A produção de bens industriais e tecnológicos cumpre o seu papel de criar valor subjetivo na crescente especulação das bolsas de valores.

A novela do Brexit

A ameaça da imigração, que tem sido um dos principais motores para propagar o crescimento da extrema direita, voltou a ser exibida pelos conservadores ingleses. Mais uma vez eles venceram as eleições legislativas. Desta vez com maioria absoluta. “Nas últimas décadas, temos visto chegar trabalhadores não qualificados vindos de toda a União Europeia que tratam o Reino Unido como se fosse o país deles”, bradou Boris Johnson durante a campanha. O Norte da Inglaterra, área tradicional de domínio do Partido Trabalhista, foi também de onde vieram votos numerosos pela saída do Reino Unido da União Europeia. Os conservadores enxergam nisso uma oportunidade ideal para acabar com a lealdade da região ao “Labour Party” e avançaram nesse projeto nas recentes eleições.

Os trabalhistas advertem com o colapso do Serviço Nacional de Saúde e prometem que, num agora improvável governo do seu partido, iriam renacionalizar os serviços públicos que foram privatizados num processo que se iniciou com Margareth Thatcher, entre eles os de água e eletricidade.

O Reino Unido é hoje um país dividido. Há fraturas internas difíceis de serem curadas e a velha Inglaterra se prepara para um processo que chamou de Brexit e que representa não mais do que um salto no desconhecido. A Europa de hoje não é mais aquele continente em que a velha Albion pontificava e apontava a direção a seguir.

A queda de braço na França

A disputa travada entre os sindicatos e o governo parou a França. A palavra grève é um vocábulo francês e a paralização dos transportes e de atividades vitais do país numa greve geral parece querer lembrar isso.

Trabalhadores, estudantes e outras amplas categorias mobilizam-se contra a reforma da previdência social proposta pelo governo Emmanuel Macron. Todos temem as ameaças às suas aposentadorias e cerca de oitocentas mil pessoas participam dos protestos. O governo se diz determinado a implantar medidas liberais e afirma que novas políticas são essenciais para transformar a economia francesa. A oposição alerta para a perda de direitos e a degradação das condições sociais.

O impasse continua e as agitações devem prosseguir numa queda de braço entre o governo e os trabalhadores.

Como em todas as propostas de mudanças na previdência social apresentadas na maioria dos países, um novo sistema obrigará os trabalhadores a trabalhar mais tempo para, um dia, poderem usufruir de uma aposentadoria cada vez menor.

A Espanha no impasse

Um acordo entre o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e a coligação de esquerda Unidas Podemos (UP) aparentemente havia resolvido o impasse político que já dura quatro anos no cenário político espanhol. Estes mesmos partidos não tinham sido capazes de um acerto para governar o país após as três últimas eleições. Pedro Sánchez, do PSOE, deverá continuar Primeiro Ministro num acordo “à portuguesa”, como dizem os espanhóis, referindo-se à chamada Geringonça que permitiu um governo bem sucedido, à esquerda, em Portugal.

O acordo foi firmado com certa rapidez motivado pelo avanço do Vox, partido de extrema direita que nas últimas eleições mais que dobrou seu número de assentos no parlamento espanhol. Uma nova posição de outros partidos da direita, como é o caso do PP, tornou no entanto mais difícil uma solução porque ainda falta o apoio de 50 deputados para terminar a novela.

O novo governo tem problemas a enfrentar e tentar resolver principalmente com os catalães que pretendem cada vez mais autonomia e os bascos, que continuam inquietos mesmo depois de o ETA ter abandonado as armas. Há também movimentos independentistas na Galícia, Valencia e até mesmo nas Ilhas Canárias para dar maior dor de cabeça ao governo espanhol.

E assim caminha a Europa, acossada cada vez mais pela direita, desafiada pela esquerda, arriscando-se a mergulhar no caos da cadela fascista, que está sempre no cio, como dizia Brecht e como nos faz lembrar o que se passa hoje na Polônia e na Hungria, dois países que mergulham cada vez mais profundamente na escuridão.

Leia os textos anteriores da série 'O novo velho Continente e suas contradições':

* A sobrevivência das esquerdas em campo minado
* A resistência das esquerdas
* O ataque dos inimigos da paz
* O naufrágio da humanidade
* A direita e a sua cultura da violência
* Uma sombra negra que se amplia
* Os senhores da Direita e o futuro da Europa
* O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros
* O Novo Velho Continente e suas Contradições



Conteúdo Original por Carta Maior


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