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Reflexão
Original
Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Democracia: a partícula central da sociedade. 
AN Original
2019-11-15
Por Rafael dos Santos da Silva

Todas as manhãs, na fronteira leste entre França e Suíça, dezenas de cientistas de variadas nacionalidades emprestam seus conhecimentos afim de manipular uma máquina de aproximadamente 27 km de extensão, estabelecida a 175 metros abaixo do nível do mar. Essa máquina é denominada de Acelerador de Partículas de Hádrons , cujo objetivo é fazer a matéria viajar em sentido oposto a uma velocidade estratosférica até chocarem-se. Espera-se que os efeitos desse impacto revelem as entranhas da matéria, para assim conhecê-la na sua mais profunda essência. A grande hipótese perseguida estimula a ideia de que as partículas já estejam ali há mais 13,7 bilhões de anos e, portanto, estariam na origem do universo.

© iStock

O que isso tem a ver com a democracia? Estou convencido que a forma e o método empreendido na busca da essência da matéria têm algo a nos dizer sobre a busca pela a essência da democracia. Tal como aquelas partículas precisam colidir para mostrar suas entranhas, assim é a democracia, que não sendo matéria, precisa da nossa energia e movimento para ser chocada com a realidade, de tal forma que possa penetrar as entranhas da sociedade. Uma vez descoberta, talvez seja possível compreender sua formação para enfim modificá-la. Dito de outra forma: precisamos imprimir velocidade à democracia, fazê-la ir de encontro à realidade, para feito os cientistas que trabalham no acelerador de partículas, buscar a essência de nossa sociedade.

Enquanto não imprimimos movimento à democracia, ela gira em baixa rotação induzindo um processo adoecido. Nesse cenário, as disputas muitas vezes ilegítimas são eivadas de narrativas falsas quando não violentas. Os interessados na baixa rotação democrática agem para neutralizar a participação da grande sociedade e abrir espaço a manipulação de uma pequeníssima elite. Pequena no tamanho, porém com imensa capacidade de concentrar poder e riqueza. Essa elite, não só domina, mas manipula as leis jurídicas e econômica. Não tem escrúpulo ou vergonha de induzir a informação e centrar força na manipulação eleitoral.

Ao dominar a informação, a economia e as leis, a elite produz uma sociedade do atraso. Estabelece um movimento carcomido para manter o status-quo. Elege como inimiga as instituições que aderem a resistência histórica, como os sindicatos, e toma de assalto aquelas que deveriam regular a sociedade. Em relação ao Brasil, pensava-se que esse tipo de classe estava interessada em dominar os modelos tradicionais da economia como os fluxos industriais, comerciais e de serviços, mas, hoje sabe-se das suas aproximações aos milicianos, ao tráfico internacional de drogas e até de armas. Eles tramam nos porões palacianos e agem de forma a açodar outros poderes.    

Em baixa velocidade a democracia é facilmente sequestrada. Feito lama na água apodrece até regressar ao estado de exceção via força, ou vigilância e controle. A democracia em baixa rotação é, portanto, uma presa fácil, pois evita conflitos entre suas classes, não se choca com nada e não se revela. Dar-se pelo medo e engessada não evolui, tão pouco guarda a expectativa no futuro, porque o presente lhe serve enquanto camisa de força.

Nesse tipo de sociedade a democracia é reduzida a lógica eleitoral sem regras claras, e quando não está servindo a uma classe, é dela o caminho mais próximo rumo a acumulação da riqueza socialmente produzida. Por causa da baixa velocidade da democracia, não é possível aprofundar o ideário social da coletividade. Não é possível obter os ganhos da participação ou tão pouco conhecer os frutos da democracia participativa.

Em tal cenário, os sindicatos são fortemente atacados  Os movimentos sociais devem ser vistos como inimigos, e a classe trabalhadora é apinhada em seus direitos. Sem participação efetiva, a cidadania vira um mero instrumental burocrático reduzida a aquisição do CPF ou de algum tipo de endividamento bancário.

O primeiro desafio desse tipo de sociedade é olhar para a sua economia, pois é aí que ocorrem os primeiros movimentos de frenagem. Ao experimentar esse tipo de democracia é comum observar a classe trabalhadora comemorar o aumento na bolsa de valores como se fosse aumento no salário. A financeirização das relações socias é vista aqui como elemento de crescimento e avanço social. A vida a crédito, não questiona o super lucro dos bancos, mas se há uma pequena transferência de renda aos pobres, está se torna uma verdadeira ameaça a soberania e rapidamente se torna um estorvo. Os pequenos produtores já não encontram espaço no sistema, enquanto as reproduções mediáticas fazem crer que o tudo é “tec”; o tudo é “pop” o tudo é “tudo, tudo”. Manipulam a inteligência alheia fazendo de uma bricolagem de palavras a verdade.

Qual o desafio da sociedade quando se encontra com esse tipo de democracia? O desafio consiste em aumentar a velocidade e intensidade do espaço democrático, via participação social. A democracia estar a ganhar velocidade ou a ficar estacionada à espera do próximo pleito? Recorro a Coutinho para quem a democracia enquanto valor universal é o socialismo sem fim. Ao dizer isso, o autor induz que a democracia é antes de tudo um processo em constante movimento a considerar erros e acertos em busca de formas e métodos, quase sempre questionáveis, mas nunca paralisada.

Como imprimir velocidade a democracia ao ponto de fazê-la colidir com a realidade? A bem da verdade é que não nos faltam conteúdos, mas ainda há ausência de organização social. Por isso, temos a res-ponsabilidade , ou seja, uma resposta a possibilidade de enfrentar o desafio da democracia como movimento. Dá sentido e ritmo para além das eleições. Nasce aí o papel de ocupar os sindicatos, os movimentos sociais e os conselhos. E as eleições é claro! Não podemos deixar que nenhum desses instrumentos fiquem desocupados. É preciso ocupar os partidos políticos, escolher e se envolver, ir até às últimas consequências como ser candidato, mesmo sabendo da impossibilidade do sucesso. Aliás, sucesso aqui é a disputa do espaço público. Tencioná-lo até estabelecer outras tessituras. Dar velocidade à democracia é não confundir neutralidade com isenção. Não há neutralidade na política e o espaço vazio será rapidamente ocupado pela rapinagem política. Isento, podemos ser. Porque isento é aquele que não topa fazer o jogo sujo, a política da mesquinharia, da manipulação.

Para finaliza, recordo a ideia de revolução passiva de Gramsci para atestar a capacidade de intervenção social. Para o italiano, o movimento entre a posição social e hegemonia possibilita uma leitura correta da história e aí sim, provocar ações transformadoras. É preciso com urgência pôr em funcionamento o Acelerador de Partículas da Democracia. Este não pode figurar no centro da Europa, mas nas periferias onde a democracia sofre com uma súbita desaceleração. Dessa forma, é possível estabelecer alta velocidade à democracia, assim, fazê-la colidir com a realidade. Isso exige muita organização social, muito trabalho militante e participação coletiva. Nesse limite, a colisão com a elite do atraso será inevitável revelando as entranhas de nossa democracia. Quem sabe aí não a conhecemos mais, para desta forma, feito os cientistas encontramos a nossa essência. 


Rafael dos Santos da Silva
Professor Universidade Federal do Ceará – UFC
Doutorando em Sociologia - UC

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