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Reflexão
Original
Anti-Capitalismo
Anti-Colonialismo
Diálogos entre a Educação Popular e as Epistemologias do Sul
AN Original
2019-06-04
Por Elmo de Souza Lima

A constituição da América Latina foi marcada pelas lutas e resistências dos diferentes povos originários em contraposição ao processo de expropriação das riquezas naturais e econômicas e da exploração da força de trabalho, instituído pelos colonizadores europeus e incorporado às práticas de dominação das elites locais.

Nesse cenário de opressão e violência, os povos latino-americanos buscaram desenvolver diferentes estratégias políticas e organizativas para enfrentar as atrocidades implícitas nas práticas de dominação política, econômica, cultural e epistêmica impostas pelo processo de colonização portuguesa e espanhola.

Os esforços empreendidos pelos oprimidos da América Latina, para contrapor-se ao projeto de dominação europeia e norte-americana, foram reforçados através da articulação e do fortalecimento das organizações sociais constituídas a partir das lutas sociais. Por meio da organização política, os movimentos sociais investiram em projetos educativos que desenvolvessem a consciência crítica dos trabalhadores, possibilitando a compreensão mais elaborada do contexto sócio-histórico, político e cultural em que estavam inseridos, marcados pela dominação, exclusão e opressão.

Dos movimentos sociais surgiram as experiências de educação popular, ainda na década de 1960, fundamentados nos referenciais políticos e pedagógicos da teologia da libertação e da pedagogia freireana, assim como, nos ideais marxistas, associados à problematização e ao desvelamento da realidade.

Para Freire (1987), a educação popular traz como essência a dimensão política- libertadora capaz de desenvolver nos sujeitos a capacidade de problematizar, de ampliar a compreensão do contexto em que estão inseridos e de transformação de si e do mundo, pois tomam consciência do seu papel político no processo de transformação da sociedade.

Constitui-se num projeto de educação que, ao oportunizar o encontro dos sujeitos para dialogar sobre o mundo, promove também um reencontro deles com o mundo, mediado por uma dinâmica pedagógica de releitura e reinterpretação desse contexto, desdobrando-se numa ação política de questionamento das condições de desumanização e da construção de práticas sociais associadas à luta pela libertação.

As práticas educativas instituídas a partir das contribuições da pedagogia freireana parte de uma relação dialógica e dialética com o contexto sócio-histórico e cultural dos oprimidos, constituindo numa educação tecida no e pelo diálogo sobre as experiências dos sujeitos sociais, seus saberes e concepções de vida, buscando compreender seus modos de pensar sobre o mundo.

As reflexões construídas acerca dos pressupostos teóricos e epistemológicos que fundamentam as experiências de Educação Popular demonstram que as alternativas pedagógicas construídas pelos movimentos sociais, em diálogo com os pesquisadores acadêmicos, trouxeram importantes contribuições teóricas e metodológicas que se contraponham à pedagogia clássica, assumindo o desafio de forjar projetos educativos comprometidos com a emancipação e a transformação social.

Os percursos teóricos trilhados pelos movimentos sociais na construção de diferentes projetos educativos, associados ao desenvolvimento de estratégias pedagógicas que reconheçam os saberes e as práticas sociais dos excluídos e o protagonismo dos sujeitos na produção de conhecimento, trazem um conjunto de princípios políticos e pedagógicos que se aproximam das discussões desenvolvidas por Santos (2009), através das Epistemologias do Sul e das Ecologias dos Saberes, na medida em que dialoga com as experiências sociais da população excluída e marginalizada no mundo.

De acordo com Santos (2006), as experiências sociais e políticas dos diferentes grupos sociais, que atuam nas periferias do mundo, trazem uma gama de conhecimentos associados à construção de outro modelo de sociabilidade, pautado na justiça, na solidariedade e na sustentabilidade. Desse modo, são as experiências que trazem contribuições significativas para se repensar as lutas políticas e as estratégias de emancipação social por meio da construção de projetos como alternativas ao capitalismo global.

Para Santos (2009), o processo de colonização empreendido nas regiões periféricas do mundo foi construído a partir de dispositivos de dominação política, econômica e cultural baseado na imposição de paradigmas epistêmicos pautado na negação/regulação dos modos de pensar, de se conceber o mundo, as relações sociais e culturais.

A partir dessa prática de negação e invisibilização, tanto dos conhecimentos quanto das práticas culturais dos grupos colonizados, tornou-se possível consolidar uma estratégia de dominação marcada pela imposição de valores, crenças e costumes tidos como “modernos” e “civilizados”. Tal controle ideológico foi implementando a partir da negação do “outro” e da exaltação da supremacia da cultura e do conhecimento eurocêntrico, tido como verdade e modelo a ser seguido pelos demais povos colonizados, considerados como inferiores e atrasados.

Nesse cenário, é fundamental forjar alternativas de produção do conhecimento que possam articular-se com as diferentes matrizes culturais e epistêmicas desenvolvidas pelos diferentes grupos sociais atuantes nas zonas periféricas do mundo. Percebe-se, nesse contexto, a preocupação de se dedicar à construção de outro modelo de ciência que seja capaz de articular-se com as experiências sociais construídas historicamente pelos grupos sociais marginalizados pelo pensamento científico hegemônico.

Diante dessa discussão, Santos (2009) defende a construção de outras estratégias de produção do conhecimento que prime pelo diálogo e pela integração entre os diferentes tipos de conhecimentos (científicos e não científicos), buscando evidenciar e valorizar a diversidade epistemológica que permeia as práticas sociais e políticas dos grupos sociais. Em razão disso, o autor propõe a constituição de outro paradigma de produção do conhecimento instituído a partir das “Epistemologias do Sul”.

As Epistemologias do Sul propõem a superação do paradigma científico moderno que promove a invisibilização da diversidade de experiências e conhecimentos construídos pelos diferentes grupos sociais no “sul global”, buscando instituir uma pedagogia capaz de estabelecer um diálogo intercultural entre diferentes práticas sociais com o intuito de forjar um paradigma de vida, pautado na justiça, solidariedade e respeito à diversidade (SANTOS, 2009).

A construção de outras pedagogias comprometidas com a emancipação social está associada à elaboração de projetos educativos que, subvertendo a tradição pedagógica e científica de regulação e negação dos saberes e das práticas sociais dos excluídos, possam instituir modelos pedagógicos insurgentes e que transformem as experiências dos movimentos em instrumentos políticos capazes de forjar diferentes perspectivas de interpretação e atuação no/com o mundo.

Compreendemos que as contribuições de Santos (2009) e Freire (1987) apontam novas perspectivas teóricas e metodológicas para se pensar em projetos educativos que se constituam enquanto espaço de desvelamento do mundo, através da implementação de projetos que favoreçam as trocas de experiências e a produção de conhecimentos voltados ao reconhecimento dos saberes historicamente construídos pelos grupos sociais excluídos, através das contribuições teóricas e epistemológicas da “ecologia de saberes”.

Os coletivos envolvidos na construção dos projetos de Educação Popular, inspirados nos pressupostos teóricos da pedagogia freireana (FREIRE, 1987), assumem o compromisso de forjar outras estratégias pedagógicas adequadas para se estabelecer os diálogos entre o conhecimento popular e o científico, dentro de um contexto de reciprocidade e complementaridade, reconhecendo o caráter de incompletude e de interdependência dos conhecimentos.

As experiências de educação popular, construídas em diálogo com os movimentos sociais, atuam na perspectiva de traçar caminhos teóricos e metodológicos que promovam uma ruptura com os parâmetros políticos e pedagógicos da pedagogia clássica, articulando-se com os princípios teóricos propostos pelas Epistemologias do Sul.

Nesse sentido, as experiências oportunizam aos/as educadores/as e educados/as diferentes espaços e tempos de formação e produção do conhecimento, permeados pelas trocas de experiências, os diálogos coletivos e as problematizações das práticas sociais, estabelecendo articulações entre os saberes dos diferentes grupos sociais com os conhecimentos historicamente construídos pela humanidade, na tentativa de forjar práticas de transformação social.


Referências

  • FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
  • SANTOS, B. de S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.
  • ______. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In: SANTOS, B. de S.; MENESES, M. P. (Orgs.) Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.

Elmo de Souza Lima é Doutor em Educação (UFPI), com pós-doutorado em Ciências Sociais (CES-UC). Professor do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e coordenador adjunto do Núcleo de Pesquisa em Educação do Campo. 

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