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Defender a Sociologia e as Ciências Sociais e Humanas contra a criminalização do pensamento crítico
AN Original - Alice Comenta
2019-05-07
Por João Arriscado Nunes

1. Nas últimas semanas, tem circulado internacionalmente uma carta aberta lançada a partir da Universidade de Harvard, que reuniu em poucos dias milhares de assinaturas de sociólogos e sociólogas de diferentes países. A carta é uma declaração de apoio aos sociólogos e aos departamentos de sociologia das universidades brasileiras, repudiando a intenção manifestada pelo governo brasileiro de reduzir drasticamente o financiamento de cursos de ciências humanas e filosofia nas universidades públicas. O documento realça, contra essa posição, a importância destas áreas do saber para a produção de conhecimento indispensável à compreensão, à crítica e à ação transformadora em sociedades complexas, em que conquistas civilizacionais que afirmam a dignidade dos seres humanos na sua diversidade são desafiadas por múltiplas formas de desigualdade, de exclusão e de opressão. As ciências sociais e humanas ocupam um lugar central na formação de cidadãos capazes de protagonizar uma cidadania ativa e crítica, e a sua eliminação priva a sociedade de conhecimentos indispensáveis ao que o filósofo John Dewey chamava ação inteligente, orientada para a promoção da dignidade, da justiça e da democracia.

2. Vale a pena recordar, a este propósito, que neste ano de 2019 se comemora o 60ª aniversário da publicação de uma das obras mais marcantes na história das ciências sociais e um dos grandes manifestos em defesa do pensamento crítico e da ação transformadora por ele informada, A Imaginação Sociológica, de Charles Wright Mills. As suas palavras, conservam, 60 anos depois e perante as ameaças ao pensamento crítico e, em particular, ao que caracteriza as ciências sociais e humanas, toda a sua pertinência: 

“A imaginação sociológica permite a quem a possui compreender o cenário histórico mais amplo em termos do seu significado para a vida interior e a carreira exterior de uma variedade de indivíduos. Ela torna possível levar em conta de que maneira indivíduos, na agitação das suas experiências diárias, se tornam muitas vezes falsamente conscientes das suas posições sociais. Nessa agitação, procura-se o enquadramento da sociedade moderna, e dentro desse enquadramento formulam-se as psicologias de uma variedade de homens e mulheres. Através desses meios, a inquietação pessoal dos indivíduos é focada em dificuldades explícitas e a indiferença dos públicos é transformada em envolvimento com questões públicas (...) A imaginação sociológica permite-nos apreender história e biografia e as relações entre as duas na sociedade. Essa é a sua tarefa e a sua promessa.”

O ponto de partida de Mills foi a crítica ao que considerava serem as limitações das correntes dominantes da sociologia do seu tempo. Mas a sua caracterização da imaginação sociológica enquanto capacidade de articular a experiência pessoal e os problemas sociais, a biografia e a história, não deve ser confinada ao espaço disciplinar e académico, mas ampliada à produção de saberes e práticas de pesquisa orientadas para a transformação democrática e emancipatória do mundo, e para a luta contra todas as formas de desigualdade, discriminação, exclusão e opressão. A capacidade para a interrogação crítica e para a ação por esta informada é a condição do que Boaventura de Sousa Santos chama a ação rebelde, num mundo marcado pela diversidade e pela riqueza dos saberes e experiências existentes no mundo, mas também pela desigualdade, pela injustiça social, histórica e cognitiva, pelo preconceito e por formas visíveis e invisíveis de violência. As ciências sociais e humanas oferecem contribuições indispensáveis para converter o conformismo perante uma realidade alegadamente sem alternativa em capacidade de lidar com o desconforto perante o que se desconhece ou perante aquilo que desafia preconceitos e hábitos enraizados através do pensamento crítico e da ação transformadora.

Por essa via, a experiência das várias formas de discriminação e da violência nas suas diferentes manifestações pode deixar de ser vivida como fatalidade e passar a ser entendida na sua relação com os processos persistentes de dominação, desigualdade e exclusão, alimentados e consolidados por políticas do Estado, práticas de desumanização daqueles e daquelas que são diferentes, e pela vulnerabilização de populações, territórios, comunidades ou grupos. O desemprego deixa de ser assumido como uma manifestação de incapacidade ou infortúnio pessoal, passando a ser compreendido na sua relação com um sistema social e económico caracterizado por relações de poder que se apoiam na exploração do trabalho e sustentam a sua reprodução, numa nova leitura do mundo, como lhe chama Paulo Freire.

3. Não é por acaso que a atual vaga conservadora e autoritária que se manifesta em várias partes do mundo tome como um dos seus alvos prioritários as universidades e o pensamento crítico associado ao ensino, pesquisa e extensão em Ciências Sociais e Humanas. A situação atual no Brasil torna clara a importância estratégica que assume, para os projetos autoritários e neofascistas, a destruição da capacidade de formação de uma cidadania crítica e das áreas de conhecimento que permitem problematizar e fundamentar as opções em matéria de políticas públicas e de intervenções com consequências para a sociedade, para a saúde e para o ambiente e, em particular, para os setores mais vulnerabilizados da população. O sucateamento anunciado das instituições, a desqualificação de áreas inteiras do saber, o apelo à delação de professores e o ataque à liberdade académica e à liberdade de ensino visam explicitamente a censura e criminalização do pensamento crítico em todas as suas formas. Seria um erro, por isso, pensar que outras áreas científicas serão poupadas a este processo. As ciências sociais e as humanidades são visadas de maneira prioritária, não devido à sua alegada irrelevância, mas porque, em diálogo com a riqueza de experiências e saberes que nascem das lutas contra a dominação e a opressão nas suas diferentes formas, trazem contribuições indispensáveis ao trabalho colaborativo de interpelação do mundo e a um pensamento crítico comprometido com a mudança,  vinculando as experiências vividas aos processos sociais que as condicionam, identificando os lugares e momentos em que a mudança se torna possível e em que a ação se torna ação libertadora, como nos ensina Paulo Freire, outro alvo notório da guerra ao pensamento crítico.  

4. Cultivar hoje a imaginação sociológica é parte de um processo mais amplo de construção de formas de pensamento critico e de ação transformadora, de conhecer aprendendo, e de aprender conhecendo. Para isso, as ciências sociais e humanas precisam de continuar a lutar no espaço das universidades contra a criminalização do pensamento e pela liberdade académica, mas também assumir de maneira radical, como propõe Boaventura de Sousa Santos, apropriando as lições de Wright Mills, Paulo Freire e outros pensadores críticos, a terceira missão da universidade, a extensão entendida como ampliação para além do espaço desta da imaginação sociológica e crítica através da produção colaborativa de saberes críticos e transformadores, construídos nas e com as lutas pela dignidade, pela justiça social e cognitiva e pela democracia.

 

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