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Reflexão
Original
Anti-Heteropatriarcado
E ai Professora, Mulher também faz ciência?”
2019-01-02
Por Kelma Matos

Fui convidada para um debate numa Radio FM em Fortaleza – Ceará – Brasil, para falar sobre Ciência, Agências de Fomento, há uns dez anos. Lá, um fato chamou minha atenção: Cinco homens, e eu, única mulher. Todxs docentes. Cada um explicitou experiências na Universidade, o que estava pesquisando, desafios sobre financiamentos.

Não fui a primeira a falar, nem a segunda, nem a terceira. Não refleti sobre isso de imediato, apenas senti um incômodo quando, após ouvir, atentamente, meus colegas, em vez de ser apresentada, como eles, ouvi: “E aí Profa. Kelma, mulher também faz ciência?” Quantas vezes tive de respirar? Muitas. Viva Buda! Nesse período, além de todas as tarefas acadêmicas, feitas com amor, compromisso e vontade, tinham ainda as de casa, e outras tantas…., mas o que aquele homem, que sorria para mim, tinha haver com isso? Ele tinha aprendido socialmente que era “estranha” minha presença ali: o diverso, a diversa.

Respondi? Sim! Com tudo o que se espera da “racionalidade ocidental”, citando autores, abordagens teóricas, argumentos elucidativos, metodologias, como fazer e desenvolver projetos, enfim, tudo o que fizesse crer à audiência da emissora, que mulher também faz ciência. E veio tudo tão “certinho” (por isso é bom respirar correto, no diafragma. Acalma!). Arrematei, com toda a humanidade possível naquele momento: “Então, mulher também faz ciência. Muitas mulheres fazem ciência, junto com muitos homens”. Um engasgo, e “Parabéns Professora Kelma. Que trabalho!!! Parabéns a todos”.

Hoje é dia de agradecer a esse Senhor, que me inspira a escrever essas palavras, e me remete ao desafio de trazer registros sobre mulheres cientistas. Uma rápida “olhada” no “Dicionário da nova era, na internet”, o Google, e achamos muitos exemplos. Nesse caso, minha amostra foi intencional:


 

 
Marie Curie

Elizabeth Blackwell

Maria Montessori  Nise da Silveira Mary Temple Grandin

Marie Curie – descobri essa mulher ainda na infância, folheando livros que meu pai me presenteava (Gratidão Papai!). Jamais a esqueci. Nesse livro, sobre cientistas, procurei fotos de outras mulheres, e não lembro de ter visto. Marie foi pioneira na investigação sobre a radioatividade. Trabalhou junto com Pierre, seu marido, e os dois obtiveram os créditos. Isso é fundamental. Através do trabalho delxs, com a descoberta do uso dos elementos de polônio (PO) e rádio (Ra) muitos estudos prosseguiram, assim como os tratamentos para curar o câncer. Marie Curie recebeu o Nobel de física, em 1903, e o de Química, em 1911, ainda em vida.

Elizabeth Blackwell foi a primeira mulher a diplomar-se em medicina nos Estados Unidos, em 1849. Abriu caminho para a sua irmã, que mais tarde fez o mesmo curso. E para ser reconhecida? O que Elizabeth teve de passar? O que era ou não apropriado para as mulheres na época? Quantas vezes mais que os homens precisou trabalhar para mostrar que produzia conhecimento?

Maria Montessori – Honro essa mulher com todo o meu Ser. Opondo-se à sociedade, em 1892, foi a primeira mulher italiana a frequentar a Faculdade de Medicina, e a concluir o curso, em 1896, com tese na área da psiquiatria. Trabalhou com crianças com “deficiências mentais”. Depois, voltou-se para a área da Educação. Revolucionou a Educação! Vejam o filme “Maria Montessori: Una Vita Per Bambini”. Trabalhou numa creche para filhos de operários no Bairro de San Lorenzo, em Roma. O Método Montessori baseia-se na liberdade, na descoberta das potencialidades que estão em cada um de nós, e podem ser desenvolvidas. Ela deu sua vida para a ciência em ação, que se faz na prática do cuidado.

Nise da Silveira – Brasileira. Nordestina. Alagoana. Psiquiatra. Trabalhou com Jung. Nasceu em 15.02.1905. Foi admitida na Faculdade de Medicina de Salvador com 16 anos, em 1921. Única mulher da sua turma, e mais 157 homens. Casou com um colega, Mário Magalhães, médico sanitarista. Foi presa por mais de um ano, considerada subversiva. Revolucionou o tratamento clínico de pacientes por ser contra choques elétricos, lobotomia, métodos de tratamentos agressivos. Foi punida, transferida para o Centro Educacional Engenho de Dentro, atividade considerada “menor” para os médicos na época. No local não havia recursos. Criou ateliês de pintura, modelagem, para que através dos símbolos, da criatividade, os vínculos dos clientes fossem reatados com a realidade. Passou anos observando os trabalhos de seus clientes, e defendeu que as pinturas tinham algo em comum: eram MANDALAS. Os profissionais da sua equipe não concordaram, inicialmente. Nise insistiu que a expressão dos desenhos circulares eram “tentativas dos esquizofrênicos de se reorganizarem”. Ela baseava-se em Jung, e observava que as formas circulares auxiliavam no “reequilíbrio da psiquê”, em especial, nos momentos de crise. Assim, fotografou os desenhos, fez uma carta em francês, e enviou tudo para Jung, solicitando que ele confirmasse se eram realmente MANDALAS, o que aconteceu meses depois.  O psicanalista ficou impressionado com o trabalho “feito em um hospício do subúrbio brasileiro”. Há muitas cartas entre Nise e Jung, que podem ser encontradas no Instituto Junguiano de Zurique. Há um filme imprescindível a ser visto “Nise, o coração da loucura”. 

Mary Temple Grandin uma mulher que nasceu em 29.08.1947, com autismo, e transformou, para melhor, a forma como se tratavam os animais em fazendas e abatedouros. Tem o talento de “pensar e conectar imagens”, o que só foi percebido por um professor de Ciências, em uma escola para alunos superdotados. Ainda criança, sem conseguir falar, os médicos diziam para sua mãe que a internasse. 

Mary foi incentivada e acompanhada pela mãe, e cursou até o doutorado. Realizou palestras sobre autismo, e falou como se sentem crianças e adultos que passam por essa situação. Teve uma experiência importante, ao observar, quando estava de férias na casa de um tia, no Arizona, que uma “jaula” de prender bovinos os acalmava. A partir dai, criou para si própria uma “máquina do abraço”, feita de madeira. Testou essa máquina em muitxs alunxs na Faculdade. O filme “Temple Grandin” é excelente. Fala da importância do bem estar animal, e mais, da inclusão e da prática dos valores humanos no cotidiano, de ir além de uma ciência que se fecha em caixas.

O que temos a aprender com essas e outras mulheres, com os homens, conosco? Seres humanos fazem ciência! E fazem ciência para quê? Para tornar a vida melhor de ser vivida. Assim, desejo que nas nossas diversidades possamos aprender mais sobre nós mesmos. Que seja um aprendizado que nos conecte com a nossa inteireza, e ultrapasse paradigmas, que não mais respondem às nossas necessidades de bem viver.

Hoje, vejo quantos homens e mulheres me ajudaram a fazer essas reflexões, a trilhar caminhos. Honro a todos esses homens em nome do Meu Pai, Zenilton Lopes de Souza, que sempre me perguntava, com doçura e amorosidade: “Já leu ´As Três Irmãs?` ”, livro que ele não tinha lido, mas desejava que seus filhos lessem, soubessem, e por isso também nos oferecia, músicas, muito samba, registros de alegria, bom humor e generosidade. E agradeço e honro a  todas as mulheres, em nome da minha mãe, Maria do Socorro Matos Lopes, cientista da vida, mulher sábia e artesã, que  cuidou para que seus filhos pudessem ter acesso às aprendizagens possíveis. Ofereceram o que estava ao seu alcance, no seu ofício de “gerar e cuidar de gente”. Aos dois, minha gratidão!


Kelma Socorro Lopes de Matos: Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (1988), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (1995), doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (2001), Pós Doutorado em Educação pela Universidade Federal da Bahia – UFBA (2011). Atualmente é Professora Titular do Departamento de Fundamentos da Educação – Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará e Investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Cultura de Paz, Valores Humanos, Educação e Espiritualidade, Juventudes, Escola, Educação Ambiental.
 

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