Pepetsa Fumo, é uma jovem moçambicana, empreendedora e activista social da Transformar, uma organização da pessoa “Trans” de que é membro-fundadora e coordenadora. Conforme dito por ela mesma, ela é uma mulher, apesar de ainda não ter entrado em cirurgia para retirada do órgão genital masculino e colocação de órgão genital feminino, como é feito em diversos cantos do mundo, nos casos da transexualidade, até porque a sua identidade vai muito além disso. Como qualquer outra mulher, Pepetsa pretende gerar filhos e formar um lar, aliás, o seu namorado era uma das pessoas homofóbicas (…indivíduo que rejeita homossexuais, lésbicas, bissexuais e tal…), contudo, ao conhecer Pepetsa, as suas abordagens também passaram por uma grande transformação, e estão juntos há cerca de dois anos. Nesta conversa realizada a 02 de Setembro de 2021, com Withney Sabino, Pepetsa partilha um pouco da sua estória e das suas experiências como activista.

1. Fala-nos de ti.
Eu sou a Pepetsa Fumo, uma pessoa que gosta de tudo que é bom, gosta também do seu trabalho, de ajudar o próximo, conhecer pessoas, dançar, comer, divertir-se, viajar, etc. Sou activista social e membro-fundadora da TRANSFORMAR, uma organização que trabalha em prol do reconhecimento da diversidade da identidade, inclusão e respeito pelas pessoas Trans em Moçambique. Pessoas Trans são todas aquelas pessoas que não se identificam com o sexo biológico com o qual nasceram. O processo de transformação que em mim foi mais notório é a transição do género. Essa foi a única transição até agora pois ainda estou no processo, não é uma transição da noite para o dia, é um processo, interno mas também social. Ainda não entrei em cirurgia para retirada do órgão genital masculino e colocação de órgão genital feminino.
2. Com que idade se apercebeu da dissociação entre género e sexo?
Não recordo a idade certa mas foi muito cedo, em torno dos meus 10 anos. Acho que foi apenas com os meus 16 anos que eu comecei a procurar saber o que se estava a passar comigo e comecei com o meu trabalho de activismo, a frequentar a LAMBDA e a interessar-me mais por essas questões.
3. E como as pessoas a tua volta viveram todo este processo?
Eu sou daquelas pessoas que desde a infância sempre ficou no seu canto, nunca fui de muitas amizades, não sou uma pessoa muito social. Mas claro, passei por situações de bullying, engoli muitos sapos, fui chamada mariquinhas e vivi estigmatização por parte de colegas e até dos próprios professores, mas sempre levei na ignorância. Fui uma pessoa fechada e não me deixava levar muito por esses comportamentos. Dentro de casa foi um desafio, passei por situações de violência psicológica. Na minha família associavam a questão de orientação sexual ao sexo, o que estava na cabeça deles era que homossexualidade é "entregar o rabo" a outros homens. Diziam aceitar que eu fosse gay mas não podiam aceitar que eu me vestisse como mulher ou identificar-me como mulher. E para uma pessoa Trans não é fácil camuflar a sua identidade. Eu queria construir a minha identidade como mulher. A minha família estava super desinformada em relação a questão de orientação sexual e género; passei por um processo de aceitação bastante difícil e se consegui superar foi porque trouxe essa questão á mesa de debate dentro de casa e com tempo as coisas melhoraram.
4. Como é ser Trans em Moçambique?
Desafiador. O simples facto da nossa legislação não reconhecer a identidade Trans em Moçambique é um desafio para nós e há também muita estigmatização e preconceito. Parece que as coisas estão a mudar, mas ao mesmo tempo sentimos que ainda vamos passar por desafios que nós comunidade Trans achamos desnecessários. Um dos maiores na minha opinião é a existência desses rótulos que a sociedade dita, o rótulo está muito presente no dia-a-dia de uma pessoa Trans. A questão da transexualidade está a ser olhada de forma superficial, há avanços sim, pois temos pessoas e projectos que estão a trazer essa questão á tona de forma a influenciar os tomadores de decisão, mas…
5-Sobre a TRANSFORMAR, como tem estado a ser o vosso trabalho?
Primeiro, tem sido desafiador pois somos uma organização nascente e segundo, pois existe uma escassez de recursos e a questão do Covid-19 trouxe um impacto não muito satisfatório pois afectou muito as nossas agendas e dinâmicas da própria organização. Por outro lado, estamos a ter a oportunidade de trabalhar com a sociedade civil, apesar de situações em que o nosso governo acaba intervindo, as vezes até por conta da pressão que ele recebe da sociedade civil para nos afastar.
6-Conhecemo-nos e já nos cruzamos várias vezes em acções e eventos “do movimento feminista”. Como as mulheres trans se vêem no movimento feminista?
Nós mulheres como mulheres trans estamos e não estamos no movimento. Não existe representatividade. A pauta dos movimentos feministas é muito padronizada, não há muita inclusão da diversidade e identidade dentro destes movimentos. Sinto que esta causa ainda é nossa, nós membros da comunidade. Quando há abertura para participarmos, não podemos falar, ou se falamos somos mal vistas, ainda é estranho. Tendo solidariedade há coisas que já teríamos alcançado porque no fim do dia lutamos contra o mesmo machismo.
7-Se pudesses resumir a tua experiencia numa mensagem as demais mulheres trans qual seria?
A única coisa que eu diria a essas pessoas é independentemente da tua orientação ou género, lute pelos teus sonhos, teus objectivos. Como LGBT não és obrigada a associar-se a movimentos LGBT, seja tu mesma. Se puder contribuir, contribua com o teu melhor mas caso não, seja tu mesma. Sorria e seja feliz! Seja uma pessoa super feliz e abençoada com tudo o que tens!